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A acupuntura é uma prática de medicina alternativa advinda da Medicina Tradicional Chinesa (MTC) que, em sua origem, objetiva-se pelo restabelecimento do equilíbrio fundamental do corpo através de estimulação de pontos específicos do corpo podendo ou não ser associada com a utilização de compressas de ervas aquecidas. Sendo proposto como tratamento principal ou de suporte para diversas patologias na medicina ocidental segundo estabelecido pela Organização Mundial da Saúde (OMS), se hipotetiza um resultado positivo e promissor para o tratamento de vertigem e tonturas, que são os principais sintomas físicos da patologia de labirintite [1]

A labirintite, prevalente especialmente em adultos entre 30 e 60 anos de idade, é classificada como desordem do equilíbrio e audição do corpo humano causada principalmente por infecção bacteriana ou viral, doença autoimune, processos inflamatórios, lesões e alergias [1, 2], podendo ocorrer de forma aguda ou crônica. Tais centros de processos inflamatórios e/ou infecciosos afetam especialmente os labirintos, que são regiões presentes no sistema vestibular no ouvido interno. Além de vertigem e tonturas, pacientes com labirintite também podem relatar sintomas como náusea, vômitos e, em casos mais graves, perda auditiva e/ou zumbido no ouvido [1], sendo os últimos importantes para o diagnóstico diferencial da labirintite especialmente para com patologias como neurite vestibular, Doença de Meniere, AVC e fratura [3-5]. Entre os tratamentos convencionais disponíveis, destacam-se o uso de medicamentos de forma aguda por cerca de seis semanas, fisioterapia como terapia de estabilização vestibular e alimentação saudável. Em casos de infecções bacterianas relacionadas, antibióticos também podem ser prescritos [1]. Para casos de perda auditiva, o implante coclear tem sido amplamente sugerido [6-8].

De forma adicional ou como substituição aos tratamentos convencionais, a acupuntura tem sido uma proposta para a diminuição dos sintomas da labirintite. Suas sessões, indicadas a serem em uma quantidade de 6 a 12 com duração média de 30 minutos cada, estimulam cinco principais pontos relacionados com os sintomas da labirintite [9]. De forma especial, a estimulação no ponto PC6 tem mostrado alta eficácia para a vertigem e sintomas neurovegetativos, como demonstrado em um estudo com 204 pacientes sendo, dentre eles, 80 com estimulação labiríntica [10]. Além disso, a acupuntura, ao contrário dos tratamentos convencionais, não apresenta efeitos colaterais extensos, sendo muitas vezes a escolha do médico e do paciente [9]. Entretanto, poucos são os estudos científicos revisados por pares que demonstram a efetividade desse tratamento na labirintite. 

Chiu e colaboradores publicaram em 2015 um estudo coorte com 60 participantes divididos entre grupo acupuntura com estimulação de pontos específicos e definidos pela MTC – especialmente ST36 e PC6 -, e grupo controle, cuja estimulação dos pontos foi simulada [9]. Todos os participantes advieram do Departamento de Emergência de um hospital de Taiwan, e passaram por um critério de exclusão e de inclusão rigorosos, e os sintomas de vertigem e tontura foram definidos a partir de escalas bem padronizadas, como o Dizziness Handicap Inventory (DHI), Escala Visual Analógica (VAS) de Tontura e Vertigem e da Variabilidade da Frequência Cardíaca (HRV). Nos resultados encontrados, os autores identificaram uma menor quantidade dos sintomas de vertigem nos pacientes com acupuntura verdadeira. Entretanto, é importante observar as limitações do estudo, como um reduzido tamanho amostral cuja origem foi da Emergência de um hospital e, portanto, não totalmente randomizado e cego. Como consequência, os resultados finais podem ter sido influenciados por efeito placebo, preconceito para com a técnica, ou alta intensidade basal dos sintomas uma vez que os pacientes foram inicialmente escolhidos na emergência de um hospital.

Também com limitação da quantidade de participantes, um trabalho publicado em 2017 e envolvendo 11 voluntários focou na comparação dos sintomas de vertigem e tontura antes e depois do tratamento com acupuntura [11]. Nesse desenho experimental, todos os participantes preencheram formulários similares a [10], como o DIH e VAS com os sintomas prevalentes antes do procedimento, e foram submetidos a 10 sessões de acupuntura com pressionamento de seis pontos específicos semanalmente. Grosselli e colaboradores observaram, com esse estudo, uma melhora significativa na qualidade de vida dos participantes após o tratamento completo com acupuntura – resultado também observado pelo preenchimento dos sintomas em formulários. Entretanto, uma vez que o desenho do estudo utilizou uma comparação temporal dos participantes ao invés de separação em grupo tratamento e grupo controle, algumas considerações são importantes a serem levantadas. Dentre elas, possíveis vieses de sentimentos de melhoria dos participantes baseados na expectativa do funcionamento da técnica uma vez que os sintomas tratados são subjetivos. Além disso, também é importante observar a quantidade limitada de participantes, e todos não-cegos à alocação ao grupo de tratamento, que também pode influenciar no poder estatístico e possíveis efeitos placebos do procedimento. 

Rogha M. e colaboradores em 2014 também publicaram um estudo experimental com baixa quantidade amostral de participantes – apenas 27 -, mas com comparação de grupos de acupuntura verdadeira e placebo [12]. O placebo, nesse desenho experimental, consiste em acupunturas com falsas pressões nos pontos determinados pela MTC pela utilização de agulhas falsas. Os 27 participantes dessa pesquisa foram aleatoriamente alocados nos determinados grupos de forma totalmente cega ao tratamento recebido, e os sintomas foram acompanhados por preenchimento de escaladas DHI e VAS semanalmente. O principal resultado observado foi uma diminuição estatística da percepção de zumbido no ouvido interno. Esses resultados foram mais proeminentes após quinta e décima sessões de acupuntura. 

Portanto, os estudos da área permitem uma discussão de que, embora pareça bastante promissor o tratamento não-convencional da acupuntura para os sintomas de labirintite, especialmente vertigem e zumbido no ouvido, ainda faltam estudos com um suficiente tamanho amostral para certificar a real eficácia desse tratamento. Ainda, definir um desenho experimental que diminua vieses como sentimentos de expectativa nos participantes e escalas subjetivas dos sintomas pode ser interessante para a literatura científica da área. Ademais, outros estudos indicam que além dos sintomas físicos os pacientes com labirintite também demonstram uma maior densidade de deposição óssea e perda do sinal do fluido normal do ouvido interno [2], podendo, então, ser essa uma medida biológico para ser acompanhada em grupos de acupuntura verdadeira além dos sintomas físicos relatados pelos pacientes. 

REFERÊNCIAS

1. Barkwill, D. and R. Arora, Labyrinthitis, in StatPearls. 2021: Treasure Island (FL).

2. Taxak, P. and C. Ram, Labyrinthitis and Labyrinthitis Ossificans – A case report and review of the literature. J Radiol Case Rep, 2020. 14(5): p. 1-6.

3. Le, T.N., B.D. Westerberg, and J. Lea, Vestibular Neuritis: Recent Advances in Etiology, Diagnostic Evaluation, and Treatment. Adv Otorhinolaryngol, 2019. 82: p. 87-92.

4. Yu, L.S., et al., [Meniere disease and vestibular migraine]. Lin Chung Er Bi Yan Hou Tou Jing Wai Ke Za Zhi, 2016. 30(12): p. 925-927.

5. Schubl, S.D., et al., Temporal bone fracture: Evaluation in the era of modern computed tomography. Injury, 2016. 47(9): p. 1893-7.

6. Becker, T.S., et al., Labyrinthine ossification secondary to childhood bacterial meningitis: implications for cochlear implant surgery. AJNR Am J Neuroradiol, 1984. 5(6): p. 739-41.

7. Nguyen, T.A.K., et al., Characterization of Cochlear, Vestibular and Cochlear-Vestibular Electrically Evoked Compound Action Potentials in Patients with a Vestibulo-Cochlear Implant. Front Neurosci, 2017. 11: p. 645.

8. Della Santina, C.C., et al., Current and future management of bilateral loss of vestibular sensation – an update on the Johns Hopkins Multichannel Vestibular Prosthesis Project. Cochlear Implants Int, 2010. 11 Suppl 2: p. 2-11.

9. Chiu, C.W., et al., Efficacy and safety of acupuncture for dizziness and vertigo in emergency department: a pilot cohort study. BMC Complement Altern Med, 2015. 15: p. 173.

10. Alessandrini, M., et al., P6 acupressure effectiveness on acute vertiginous patients: a double blind randomized study. J Altern Complement Med, 2012. 18(12): p. 1121-6.

11. Grasiane Grosselli, S.S.-L., Auriculoterapia no Tratamento de Labirintopatias. Rev Bras Terap e Saúde, 2017. 7(2): p. 1-4.12. Rogha, M., M. Rezvani, and A.R. Khodami, The effects of acupuncture on the inner ear originated tinnitus. J Res Med Sci, 2011. 16(9): p. 1217-23.

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CRM-SP: 158074 / RQE: 65523 - 65524

Médico especialista em Fisiatria e Acupuntura. Área de Atuação em Dor pela AMB. Doutorado em Ciências pela USP. Pesquisador e Colaborador do Grupo de Dor do Departamento de Neurologia do HC-FMUSP. Diretor de Marketing do Colégio Médico de Acupuntura do Estado de São Paulo (CMAeSP). Integrante da Câmara Técnica de Acupuntura do Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo (CREMESP). Secretário do Comitê de Acupuntura da Sociedade Brasileira para Estudo da Dor (SBED). Presidente do Comitê de Acupuntura da Sociedade Brasileira de Regeneração Tecidual (SBRET). Professor convidado do Curso de Pós-Graduação em Dor da Universidade de São Paulo (USP). Membro do Conselho Revisor - Medicina Física e Reabilitação da Journal of the Brazilian Medical Association (AMB).