O que é Disfunção do Tibial Posterior (PTTD)?
A disfunção do tendão tibial posterior (PTTD — Posterior Tibial Tendon Dysfunction) é uma condição progressiva na qual o tendão do músculo tibial posterior — principal estabilizador dinâmico do arco medial do pé — sofre degeneração, alongamento ou ruptura, resultando em colapso gradual do arco longitudinal medial e desenvolvimento de pé plano adquirido do adulto.
O tendão tibial posterior é o estabilizador dinâmico mais importante do arco medial. Quando falha, o peso corporal transfere-se progressivamente para as estruturas ligamentares estáticas (ligamento spring, ligamento deltóide), que gradualmente cedem sob a carga, resultando em deformidade progressiva: valgo do retropé, abdução do antepé e colapso do arco medial.
A PTTD é a causa mais comum de pé plano adquirido em adultos. É mais frequente em mulheres acima de 40 anos, com fatores de risco que incluem obesidade, hipertensão, diabetes e uso de corticosteroides. O diagnóstico precoce é fundamental porque a condição é progressiva — nos estágios iniciais, o tratamento conservador pode estabilizar ou reverter a disfunção, enquanto nos estágios avançados a cirurgia pode ser necessária.
Diagnóstico Precoce
O teste de elevação do calcanhar em apoio unipodal (single-leg heel raise) é o teste clínico mais sensível — a incapacidade de realizá-lo sugere fortemente disfunção do tibial posterior
Progressão em Estágios
A classificação de Johnson e Strom (estágios I-IV) orienta o tratamento: estágios iniciais respondem ao tratamento conservador; estágios avançados podem exigir cirurgia
Sinal dos "Muitos Dedos"
O sinal de "too many toes" — visibilidade de mais dedos laterais ao olhar o pé por trás — indica abdução do antepé e colapso do arco
Órtese + Exercício
A combinação de órtese com suporte do arco medial e fortalecimento do tibial posterior é a base do tratamento conservador
Fisiopatologia
O músculo tibial posterior origina-se na face posterior da tíbia e da fíbula e na membrana interóssea, e seu tendão passa atrás do maléolo medial antes de se inserir no navicular, nos cuneiformes e nas bases dos metatarsos centrais. Sua contração supina o pé, inverte o retropé e bloqueia a articulação mediotársica (Chopart) — mecanismo essencial para a rigidez do pé durante a fase de propulsão da marcha.
CLASSIFICAÇÃO DE JOHNSON E STROM (MODIFICADA POR MYERSON)
| ESTÁGIO | TENDÃO | DEFORMIDADE | TRATAMENTO PREDOMINANTE |
|---|---|---|---|
| Estágio I | Tendinose sem alongamento. Tendão edemaciado mas com comprimento normal | Sem deformidade fixa. Arco mantido. Heel raise possível mas doloroso | Conservador: órtese, fortalecimento, acupuntura |
| Estágio II | Tendão alongado ou com ruptura parcial. Perda funcional significativa | Pé plano flexível (redutível). Valgo do retropé. Sinal de "too many toes" | Conservador otimizado; cirurgia se refratário |
| Estágio III | Tendão severamente degenerado ou rompido | Pé plano rígido (não redutível). Artrose subtalar secundária | Cirúrgico na maioria dos casos (artrodese subtalar) |
| Estágio IV | Falência completa do tendão | Pé plano rígido com valgo do tálus e insuficiência do deltóide | Cirúrgico (artrodese tibiotalocalcânea) |
A degeneração do tendão tibial posterior ocorre em uma zona relativamente hipovascular posterior ao maléolo medial — uma "zona crítica" onde o suprimento sanguíneo é insuficiente para acompanhar a demanda de reparo. Com o tempo, a degeneração progride para alongamento do tendão, que perde sua capacidade de estabilizar o arco medial. O peso corporal é então transferido para o ligamento spring (calcaneonavicular plantar), que gradualmente se distende, acelerando o colapso do arco.

Sinais e Sintomas
A apresentação clínica da PTTD varia conforme o estágio. Nos estágios iniciais, a dor e o edema na região medial do tornozelo podem ser os únicos sintomas. Nos estágios avançados, a deformidade progressiva do pé é evidente e acompanhada de limitação funcional significativa.
Quadro Clínico da PTTD
- 01
Dor e edema na face medial do tornozelo, posterior ao maléolo medial
- 02
Incapacidade de realizar elevação do calcanhar em apoio unipodal (single-leg heel raise)
- 03
Achatamento progressivo do arco medial do pé em comparação ao lado contralateral
- 04
Sinal de "too many toes" — visibilidade excessiva de dedos laterais ao olhar o pé por trás
- 05
Dor que piora com caminhadas longas, subir escadas ou ficar muito tempo em pé
- 06
Dificuldade para caminhar em terrenos irregulares
- 07
Desgaste assimétrico do calçado (desgaste medial aumentado)
- 08
Dor lateral no tornozelo (estágios avançados — impacto subfibular por valgo excessivo)
Diagnóstico
O diagnóstico da PTTD é predominantemente clínico. A combinação de dor medial no tornozelo, incapacidade de realizar heel raise em apoio unipodal e sinais de colapso do arco medial é altamente sugestiva. Exames de imagem confirmam o diagnóstico e auxiliam no estadiamento.
🏥Avaliação Clínica e por Imagem
- 1.Teste de single-leg heel raise: incapacidade de elevar o calcanhar em apoio unipodal ou ausência de inversão do calcâneo (teste mais sensível)
- 2.Sinal de "too many toes": observação posterior do pé — abdução do antepé com visibilidade de 3-4 dedos laterais
- 3.Teste de resistência à inversão do pé: fraqueza comparada ao lado contralateral
- 4.Palpação dolorosa do tendão tibial posterior retromaleolar e na inserção no navicular
- 5.Avaliação do alinhamento do retropé: valgo aumentado comparado ao contralateral (pode ser medido com goniômetro)
- 6.Ultrassonografia: espessamento, hipoecogenicidade ou ruptura parcial do tendão; avaliação dinâmica durante inversão
- 7.Ressonância magnética: avalia extensão da degeneração tendínea, integridade do ligamento spring e presença de artrose
- 8.Radiografia em carga (AP e lateral do pé): colapso do arco (aumento do ângulo de Meary), descobertura talonavicular e subluxação
Diagnóstico Diferencial
A dor na face medial do tornozelo e do pé têm diversas causas possíveis. A confusão diagnóstica mais frequente é com a fascite plantar, pois ambas as condições cursam com dor no pé que piora com carga.
DIAGNÓSTICO DIFERENCIAL
Diagnóstico Diferencial
Fascite Plantar
Leia mais →- Dor plantar no calcâneo, não medial no tornozelo
- Piora nos primeiros passos matinais
- Arco frequentemente mantido
Testes Diagnósticos
- Dor à palpação da tuberosidade medial do calcâneo
- Teste de windlass positivo (dorsiflexão do hálux)
Artrite do Médio-pé
- Dor dorsal ou plantar no médio-pé
- Rigidez progressiva das articulações tarsais
- Não necessariamente com colapso do arco
Testes Diagnósticos
- Radiografia em carga com osteófitos/redução de espaço articular
- Dor à compressão do médio-pé
Síndrome do Túnel do Tarso
Leia mais →- Parestesias e queimação na planta do pé
- Sinal de Tinel positivo posterior ao maléolo medial
- Componente neuropático proeminente
Testes Diagnósticos
- Eletroneuromiografia
- Sinal de Tinel retromaleolar medial
Tendinopatia do Aquiles
Leia mais →- Dor posterior no tendão de Aquiles, não medial
- Espessamento palpável do tendão
- Piora com atividade e melhora com aquecimento
Testes Diagnósticos
- Teste do arco doloroso (Royal London)
- Ultrassonografia do tendão de Aquiles
Entorse do Ligamento Deltóide
- Mecanismo traumático em eversão
- Dor aguda medial no tornozelo
- Edema medial com equimose
Testes Diagnósticos
- Teste de estresse em eversão
- Ressonância magnética do complexo deltóide
Tratamentos
O tratamento depende do estágio da PTTD. Nos estágios I e II, o tratamento conservador apresenta boa taxa de resposta em séries clínicas e inclui suporte ortótico do arco medial, fortalecimento progressivo do tibial posterior e modificação de atividades. Nos estágios III e IV, a cirurgia é frequentemente necessária.
Abordagem Conservadora (Estágios I-II)
Fase 1
0-4 semanasControle de Dor e Proteção
Imobilização com bota walker ou órtese tipo Arizona Brace em casos muito sintomáticos. Repouso relativo com modificação de atividades de carga. Anti-inflamatórios por período curto para controle de dor aguda.
Fase 2
4-8 semanasÓrtese e Início de Exercícios
Palmilha ortopédica com suporte do arco medial e cunha medial no retropé. Exercícios isométricos do tibial posterior (inversão resistida em posição neutra). Mobilização articular suave do tornozelo.
Fase 3
8-16 semanasFortalecimento Progressivo
Exercícios excêntricos e concêntricos do tibial posterior com faixa elástica. Exercícios de elevação do calcanhar em apoio bipodal progredindo para unipodal. Treino de equilíbrio e propriocepção do pé e tornozelo.
Fase 4
4-6+ mesesFuncional e Manutenção
Exercícios funcionais: caminhada em terrenos variados, subida de escadas, agachamentos. Manutenção do uso da palmilha ortopédica durante atividades de carga. Monitoramento periódico do arco medial e da função do tendão.
Acupuntura Médica
A acupuntura pode ser utilizada como adjuvante no tratamento da PTTD, principalmente nos estágios I e II, para controle de dor na região medial do tornozelo e para potencializar a recuperação do tendão. A estimulação de pontos locais ao longo do trajeto do tendão tibial posterior pode contribuir para a melhora da microcirculação e modulação da dor.
A eletroacupuntura em pontos peritendinosos pode favorecer o processo de reparo tendíneo ao aumentar o fluxo sanguíneo local e modular a expressão de fatores de crescimento, embora as evidências específicas para o tendão tibial posterior ainda sejam limitadas. Os dados extrapolados de estudos em outras tendinopatias (Aquiles, supraespinhal) sugerem um papel adjuvante promissor.
Quando Procurar um Médico
Disfunção do Tibial Posterior: Perguntas Frequentes
É uma condição progressiva na qual o tendão do músculo tibial posterior — principal estabilizador dinâmico do arco medial do pé — sofre degeneração e alongamento, resultando em colapso gradual do arco do pé (pé plano adquirido do adulto). É a causa mais comum de pé plano adquirido em adultos e afeta predominantemente mulheres acima de 40 anos.
Os sinais mais característicos são: dor na face medial do tornozelo (atrás do maléolo medial) que piora com caminhadas longas, achatamento progressivo do arco do pé comparado ao lado contralateral, e incapacidade de ficar na ponta do pé em apoio unipodal. Se você notar que um dos pés está ficando mais "plano" que o outro ou têm dor persistente na parte interna do tornozelo, procure avaliação médica.
Nos estágios iniciais (I e II), o tratamento conservador — combinação de órtese com suporte do arco medial e fortalecimento progressivo do tendão — pode estabilizar ou melhorar significativamente a condição em uma proporção substancial dos pacientes em séries clínicas. Nos estágios avançados (III e IV), com deformidade rígida e artrose, a cirurgia geralmente é necessária. O diagnóstico precoce é fundamental, pois a condição é progressiva.
É o teste clínico mais sensível para disfunção do tibial posterior. O paciente fica em apoio unipodal e tenta ficar na ponta do pé repetidamente. Normalmente, o calcanhar deve inverter (ir para varo) durante a elevação. Na PTTD, o paciente não consegue realizar a elevação, ou o calcanhar permanece em valgo — indicando falha do tibial posterior em supinar o retropé. É um teste simples, rápido e muito informativo.
Na maioria dos casos de estágio II, o uso contínuo de palmilha ortopédica durante atividades de carga é recomendado a longo prazo, pois o tendão alongado dificilmente recupera seu comprimento original. No estágio I, com tratamento adequado e fortalecimento efetivo, pode ser possível reduzir a dependência da órtese gradualmente. A decisão deve ser individualizada pelo médico acompanhante.
A acupuntura pode contribuir como adjuvante ao tratamento conservador, principalmente no controle da dor medial do tornozelo que frequentemente dificulta o início dos exercícios de fortalecimento. A eletroacupuntura em pontos peritendinosos (KI3, KI6, SP5) pode favorecer a microcirculação local e modular a dor, facilitando a progressão do programa de reabilitação. A acupuntura não substitui a órtese e os exercícios, que são os pilares do tratamento.
A cirurgia é considerada quando o tratamento conservador adequado (órtese + reabilitação por 3-6 meses) não produz melhora satisfatória, ou em estágios avançados (III e IV) com deformidade rígida e artrose. Os procedimentos variam conforme o estágio: transferência tendínea com osteotomia do calcâneo (estágio II refratário), artrodese subtalar (estágio III) ou artrodese tibiotalocalcânea (estágio IV). O tipo de cirurgia é determinado pelo grau de deformidade e rigidez.
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