O que é Disfunção do Tibial Posterior (PTTD)?

A disfunção do tendão tibial posterior (PTTD — Posterior Tibial Tendon Dysfunction) é uma condição progressiva na qual o tendão do músculo tibial posterior — principal estabilizador dinâmico do arco medial do pé — sofre degeneração, alongamento ou ruptura, resultando em colapso gradual do arco longitudinal medial e desenvolvimento de pé plano adquirido do adulto.

O tendão tibial posterior é o estabilizador dinâmico mais importante do arco medial. Quando falha, o peso corporal transfere-se progressivamente para as estruturas ligamentares estáticas (ligamento spring, ligamento deltóide), que gradualmente cedem sob a carga, resultando em deformidade progressiva: valgo do retropé, abdução do antepé e colapso do arco medial.

A PTTD é a causa mais comum de pé plano adquirido em adultos. É mais frequente em mulheres acima de 40 anos, com fatores de risco que incluem obesidade, hipertensão, diabetes e uso de corticosteroides. O diagnóstico precoce é fundamental porque a condição é progressiva — nos estágios iniciais, o tratamento conservador pode estabilizar ou reverter a disfunção, enquanto nos estágios avançados a cirurgia pode ser necessária.

~3-10%
PREVALÊNCIA ESTIMADA EM ADULTOS ACIMA DE 40 ANOS (ESTUDOS POPULACIONAIS)
~3:1
PROPORÇÃO MULHERES:HOMENS DESCRITA EM SÉRIES CLÍNICAS
Maioria
DOS CASOS EM ESTÁGIOS I-II RESPONDE AO TRATAMENTO CONSERVADOR BEM CONDUZIDO
50-60 anos
FAIXA ETÁRIA DE MAIOR INCIDÊNCIA
01

Diagnóstico Precoce

O teste de elevação do calcanhar em apoio unipodal (single-leg heel raise) é o teste clínico mais sensível — a incapacidade de realizá-lo sugere fortemente disfunção do tibial posterior

02

Progressão em Estágios

A classificação de Johnson e Strom (estágios I-IV) orienta o tratamento: estágios iniciais respondem ao tratamento conservador; estágios avançados podem exigir cirurgia

03

Sinal dos "Muitos Dedos"

O sinal de "too many toes" — visibilidade de mais dedos laterais ao olhar o pé por trás — indica abdução do antepé e colapso do arco

04

Órtese + Exercício

A combinação de órtese com suporte do arco medial e fortalecimento do tibial posterior é a base do tratamento conservador

Fisiopatologia

O músculo tibial posterior origina-se na face posterior da tíbia e da fíbula e na membrana interóssea, e seu tendão passa atrás do maléolo medial antes de se inserir no navicular, nos cuneiformes e nas bases dos metatarsos centrais. Sua contração supina o pé, inverte o retropé e bloqueia a articulação mediotársica (Chopart) — mecanismo essencial para a rigidez do pé durante a fase de propulsão da marcha.

CLASSIFICAÇÃO DE JOHNSON E STROM (MODIFICADA POR MYERSON)

ESTÁGIOTENDÃODEFORMIDADETRATAMENTO PREDOMINANTE
Estágio ITendinose sem alongamento. Tendão edemaciado mas com comprimento normalSem deformidade fixa. Arco mantido. Heel raise possível mas dolorosoConservador: órtese, fortalecimento, acupuntura
Estágio IITendão alongado ou com ruptura parcial. Perda funcional significativaPé plano flexível (redutível). Valgo do retropé. Sinal de "too many toes"Conservador otimizado; cirurgia se refratário
Estágio IIITendão severamente degenerado ou rompidoPé plano rígido (não redutível). Artrose subtalar secundáriaCirúrgico na maioria dos casos (artrodese subtalar)
Estágio IVFalência completa do tendãoPé plano rígido com valgo do tálus e insuficiência do deltóideCirúrgico (artrodese tibiotalocalcânea)

A degeneração do tendão tibial posterior ocorre em uma zona relativamente hipovascular posterior ao maléolo medial — uma "zona crítica" onde o suprimento sanguíneo é insuficiente para acompanhar a demanda de reparo. Com o tempo, a degeneração progride para alongamento do tendão, que perde sua capacidade de estabilizar o arco medial. O peso corporal é então transferido para o ligamento spring (calcaneonavicular plantar), que gradualmente se distende, acelerando o colapso do arco.

Progressão da PTTD: do tendão normal ao colapso do arco medial — estágios de Johnson e Strom
Progressão da PTTD: do tendão normal ao colapso do arco medial — estágios de Johnson e Strom
Progressão da PTTD: do tendão normal ao colapso do arco medial — estágios de Johnson e Strom

Sinais e Sintomas

A apresentação clínica da PTTD varia conforme o estágio. Nos estágios iniciais, a dor e o edema na região medial do tornozelo podem ser os únicos sintomas. Nos estágios avançados, a deformidade progressiva do pé é evidente e acompanhada de limitação funcional significativa.

Critérios clínicos
08 itens

Quadro Clínico da PTTD

  1. 01

    Dor e edema na face medial do tornozelo, posterior ao maléolo medial

  2. 02

    Incapacidade de realizar elevação do calcanhar em apoio unipodal (single-leg heel raise)

  3. 03

    Achatamento progressivo do arco medial do pé em comparação ao lado contralateral

  4. 04

    Sinal de "too many toes" — visibilidade excessiva de dedos laterais ao olhar o pé por trás

  5. 05

    Dor que piora com caminhadas longas, subir escadas ou ficar muito tempo em pé

  6. 06

    Dificuldade para caminhar em terrenos irregulares

  7. 07

    Desgaste assimétrico do calçado (desgaste medial aumentado)

  8. 08

    Dor lateral no tornozelo (estágios avançados — impacto subfibular por valgo excessivo)

Diagnóstico

O diagnóstico da PTTD é predominantemente clínico. A combinação de dor medial no tornozelo, incapacidade de realizar heel raise em apoio unipodal e sinais de colapso do arco medial é altamente sugestiva. Exames de imagem confirmam o diagnóstico e auxiliam no estadiamento.

🏥Avaliação Clínica e por Imagem

  • 1.Teste de single-leg heel raise: incapacidade de elevar o calcanhar em apoio unipodal ou ausência de inversão do calcâneo (teste mais sensível)
  • 2.Sinal de "too many toes": observação posterior do pé — abdução do antepé com visibilidade de 3-4 dedos laterais
  • 3.Teste de resistência à inversão do pé: fraqueza comparada ao lado contralateral
  • 4.Palpação dolorosa do tendão tibial posterior retromaleolar e na inserção no navicular
  • 5.Avaliação do alinhamento do retropé: valgo aumentado comparado ao contralateral (pode ser medido com goniômetro)
  • 6.Ultrassonografia: espessamento, hipoecogenicidade ou ruptura parcial do tendão; avaliação dinâmica durante inversão
  • 7.Ressonância magnética: avalia extensão da degeneração tendínea, integridade do ligamento spring e presença de artrose
  • 8.Radiografia em carga (AP e lateral do pé): colapso do arco (aumento do ângulo de Meary), descobertura talonavicular e subluxação

Diagnóstico Diferencial

A dor na face medial do tornozelo e do pé têm diversas causas possíveis. A confusão diagnóstica mais frequente é com a fascite plantar, pois ambas as condições cursam com dor no pé que piora com carga.

DIAGNÓSTICO DIFERENCIAL

Diagnóstico Diferencial

Fascite Plantar

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  • Dor plantar no calcâneo, não medial no tornozelo
  • Piora nos primeiros passos matinais
  • Arco frequentemente mantido

Testes Diagnósticos

  • Dor à palpação da tuberosidade medial do calcâneo
  • Teste de windlass positivo (dorsiflexão do hálux)

Artrite do Médio-pé

  • Dor dorsal ou plantar no médio-pé
  • Rigidez progressiva das articulações tarsais
  • Não necessariamente com colapso do arco

Testes Diagnósticos

  • Radiografia em carga com osteófitos/redução de espaço articular
  • Dor à compressão do médio-pé

Síndrome do Túnel do Tarso

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  • Parestesias e queimação na planta do pé
  • Sinal de Tinel positivo posterior ao maléolo medial
  • Componente neuropático proeminente

Testes Diagnósticos

  • Eletroneuromiografia
  • Sinal de Tinel retromaleolar medial

Tendinopatia do Aquiles

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  • Dor posterior no tendão de Aquiles, não medial
  • Espessamento palpável do tendão
  • Piora com atividade e melhora com aquecimento

Testes Diagnósticos

  • Teste do arco doloroso (Royal London)
  • Ultrassonografia do tendão de Aquiles

Entorse do Ligamento Deltóide

  • Mecanismo traumático em eversão
  • Dor aguda medial no tornozelo
  • Edema medial com equimose

Testes Diagnósticos

  • Teste de estresse em eversão
  • Ressonância magnética do complexo deltóide

Tratamentos

O tratamento depende do estágio da PTTD. Nos estágios I e II, o tratamento conservador apresenta boa taxa de resposta em séries clínicas e inclui suporte ortótico do arco medial, fortalecimento progressivo do tibial posterior e modificação de atividades. Nos estágios III e IV, a cirurgia é frequentemente necessária.

Abordagem Conservadora (Estágios I-II)

Fase 1
0-4 semanas
Controle de Dor e Proteção

Imobilização com bota walker ou órtese tipo Arizona Brace em casos muito sintomáticos. Repouso relativo com modificação de atividades de carga. Anti-inflamatórios por período curto para controle de dor aguda.

Fase 2
4-8 semanas
Órtese e Início de Exercícios

Palmilha ortopédica com suporte do arco medial e cunha medial no retropé. Exercícios isométricos do tibial posterior (inversão resistida em posição neutra). Mobilização articular suave do tornozelo.

Fase 3
8-16 semanas
Fortalecimento Progressivo

Exercícios excêntricos e concêntricos do tibial posterior com faixa elástica. Exercícios de elevação do calcanhar em apoio bipodal progredindo para unipodal. Treino de equilíbrio e propriocepção do pé e tornozelo.

Fase 4
4-6+ meses
Funcional e Manutenção

Exercícios funcionais: caminhada em terrenos variados, subida de escadas, agachamentos. Manutenção do uso da palmilha ortopédica durante atividades de carga. Monitoramento periódico do arco medial e da função do tendão.

Acupuntura Médica

A acupuntura pode ser utilizada como adjuvante no tratamento da PTTD, principalmente nos estágios I e II, para controle de dor na região medial do tornozelo e para potencializar a recuperação do tendão. A estimulação de pontos locais ao longo do trajeto do tendão tibial posterior pode contribuir para a melhora da microcirculação e modulação da dor.

A eletroacupuntura em pontos peritendinosos pode favorecer o processo de reparo tendíneo ao aumentar o fluxo sanguíneo local e modular a expressão de fatores de crescimento, embora as evidências específicas para o tendão tibial posterior ainda sejam limitadas. Os dados extrapolados de estudos em outras tendinopatias (Aquiles, supraespinhal) sugerem um papel adjuvante promissor.

Quando Procurar um Médico

PERGUNTAS FREQUENTES · 07

Disfunção do Tibial Posterior: Perguntas Frequentes

É uma condição progressiva na qual o tendão do músculo tibial posterior — principal estabilizador dinâmico do arco medial do pé — sofre degeneração e alongamento, resultando em colapso gradual do arco do pé (pé plano adquirido do adulto). É a causa mais comum de pé plano adquirido em adultos e afeta predominantemente mulheres acima de 40 anos.

Os sinais mais característicos são: dor na face medial do tornozelo (atrás do maléolo medial) que piora com caminhadas longas, achatamento progressivo do arco do pé comparado ao lado contralateral, e incapacidade de ficar na ponta do pé em apoio unipodal. Se você notar que um dos pés está ficando mais "plano" que o outro ou têm dor persistente na parte interna do tornozelo, procure avaliação médica.

Nos estágios iniciais (I e II), o tratamento conservador — combinação de órtese com suporte do arco medial e fortalecimento progressivo do tendão — pode estabilizar ou melhorar significativamente a condição em uma proporção substancial dos pacientes em séries clínicas. Nos estágios avançados (III e IV), com deformidade rígida e artrose, a cirurgia geralmente é necessária. O diagnóstico precoce é fundamental, pois a condição é progressiva.

É o teste clínico mais sensível para disfunção do tibial posterior. O paciente fica em apoio unipodal e tenta ficar na ponta do pé repetidamente. Normalmente, o calcanhar deve inverter (ir para varo) durante a elevação. Na PTTD, o paciente não consegue realizar a elevação, ou o calcanhar permanece em valgo — indicando falha do tibial posterior em supinar o retropé. É um teste simples, rápido e muito informativo.

Na maioria dos casos de estágio II, o uso contínuo de palmilha ortopédica durante atividades de carga é recomendado a longo prazo, pois o tendão alongado dificilmente recupera seu comprimento original. No estágio I, com tratamento adequado e fortalecimento efetivo, pode ser possível reduzir a dependência da órtese gradualmente. A decisão deve ser individualizada pelo médico acompanhante.

A acupuntura pode contribuir como adjuvante ao tratamento conservador, principalmente no controle da dor medial do tornozelo que frequentemente dificulta o início dos exercícios de fortalecimento. A eletroacupuntura em pontos peritendinosos (KI3, KI6, SP5) pode favorecer a microcirculação local e modular a dor, facilitando a progressão do programa de reabilitação. A acupuntura não substitui a órtese e os exercícios, que são os pilares do tratamento.

A cirurgia é considerada quando o tratamento conservador adequado (órtese + reabilitação por 3-6 meses) não produz melhora satisfatória, ou em estágios avançados (III e IV) com deformidade rígida e artrose. Os procedimentos variam conforme o estágio: transferência tendínea com osteotomia do calcâneo (estágio II refratário), artrodese subtalar (estágio III) ou artrodese tibiotalocalcânea (estágio IV). O tipo de cirurgia é determinado pelo grau de deformidade e rigidez.