O que e a Faringite Crônica?
A faringite crônica e uma inflamação persistente da mucosa da faringe que se manifesta por desconforto faringeo, sensação de corpo estranho (globus), pigarro frequente e tosse seca. Diferente da faringite aguda (geralmente infecciosa e autolimitada), a forma crônica persiste por semanas a meses e envolve alterações estruturais da mucosa.
E uma das queixas mais comuns nos consultorios de otorrinolaringologia. Os principais fatores causais incluem refluxo laringofaringeo (RLF), respiração oral crônica, tabagismo, poluição ambiental, gotejamento pós-nasal e uso excessivo da voz. Frequentemente, vários fatores coexistem no mesmo paciente.
Existem tres formas histologicas principais: catarral (hiperemia e edema da mucosa), hipertrofica (hiperplasia do tecido linfoide com granulações na parede posterior — faringite granulosa) e atrofica (adelgacamento e ressecamento da mucosa, frequentemente em idosos). A identificação da forma clínica e dos fatores causais e essencial para o tratamento.
Refluxo Laringofaringeo
O RLF e a causa mais comum de faringite crônica. O contato do ácido gástrico e da pepsina com a mucosa faringea provoca inflamação crônica e alterações epiteliais.
Mucosa Faringea Vulnerável
A mucosa faringea carece da barreira de proteção ácida presente no esôfago. Poucos episódios de refluxo já são suficientes para causar lesão e sintomas crônicos.
Multifatorial
Refluxo, gotejamento pós-nasal, respiração oral, tabagismo, alergias e estresse vocal frequentemente coexistem, exigindo abordagem terapêutica multimodal.
Fisiopatologia
Na faringite crônica por refluxo laringofaringeo, o conteudo gástrico (ácido cloridrico, pepsina, ácidos biliares) atinge a faringe e laringe, causando inflamação direta da mucosa. A pepsina, mesmo em pH neutro, pode ser reativada intracelularmente e causar lesão epitelial progressiva. O papel do refluxo laringofaringeo (RLF) na faringite crônica é amplamente debatido; meta-análises mostram que o benefício do IBP para sintomas laríngeos é modesto e nem sempre superior ao placebo. O diagnóstico clínico isolado de RLF têm baixa especificidade — sinais e sintomas devem ser interpretados no contexto clínico completo.
O gotejamento pós-nasal proveniente de sinusite crônica ou rinite alérgica causa irritação mecânica e quimica da mucosa faringea posterior. A secreção mucopurulenta constante sobre a parede posterior da faringe estimula o reflexo de tosse e pigarro, perpetuando a inflamação.

Formas Histologicas
Na forma hipertrofica (granulosa), o tecido linfoide da parede posterior da faringe hiperplasia em resposta a irritação crônica, formando granulações visíveis ao exame. Na forma atrofica, a mucosa torna-se fina e seca, com perda de glândulas mucosas e atrofia do tecido linfoide — frequente em idosos e pós-radioterapia.
A respiração oral crônica (por obstrução nasal ou habito) resseca a mucosa faringea, eliminando a filtração, umidificação e aquecimento do ar que normalmente ocorrem na cavidade nasal. O ar seco e frio atinge diretamente a faringe, causando inflamação crônica e susceptibilidade a infecções.
Sintomas
Os sintomas da faringite crônica são tipicamente persistentes e flutuantes, piorando com fatores desencadeantes e melhorando parcialmente com medidas de higiene vocal e ambiental.
Sintomas da Faringite Crônica
- 01
Sensação de corpo estranho (globus faringeo)
Sensação de "bola" ou "algo preso" na garganta, que não impede a deglutição mas causa desconforto constante. E o sintoma mais frequente.
- 02
Pigarro crônico
Necessidade frequente de "limpar a garganta". O pigarro torna-se habitual e pode irritar ainda mais a mucosa, criando um ciclo vicioso.
- 03
Tosse seca crônica
Tosse irritativa, não produtiva, que piora a noite ou após as refeições (sugerindo refluxo como causa).
- 04
Dor ou ardência faringea
Desconforto leve a moderado na garganta, diferente da dor intensa da faringite aguda. Piora com ar seco, ar-condicionado e uso vocal prolongado.
- 05
Secura faringea
Sensação de garganta seca, especialmente na forma atrofica. Piora em ambientes com ar-condicionado e baixa umidade.
- 06
Mau halito (halitose)
Pode resultar do gotejamento pós-nasal, da colonização bacteriana de granulações hipertroficas ou do refluxo gástrico.
Diagnóstico
O diagnóstico baseia-se na historia clínica (duração, fatores associados), no exame otorrinolaringologico (oroscopia, nasolaringoscopia flexivel) e na identificação dos fatores causais. A nasolaringoscopia permite visualizar a mucosa faringea, laringe e sinais de refluxo.
A pHmetria faringea de 24 horas com impedância e o exame padrão-ouro para documentar o refluxo laringofaringeo. A endoscopia digestiva alta avalia a presença de esofagite e hernia hiatal. A tomografia de seios da face e indicada quando há suspeita de sinusite crônica com gotejamento pós-nasal.
🏥Avaliação Diagnostica da Faringite Crônica
- 1.Historia clínica detalhada: duração, fatores de piora, tabagismo, refluxo, obstrução nasal
- 2.Oroscopia: hiperemia, granulações na parede posterior, muco em hipofaringe
- 3.Nasolaringoscopia: edema aritenoideu, hiperemia de laringe posterior (sinais de RLF)
- 4.pHmetria faringea com impedância: documentação objetiva do refluxo laringofaringeo
- 5.TC de seios da face: exclusão de sinusite crônica como fonte de gotejamento pós-nasal
DIAGNÓSTICO DIFERENCIAL
Diagnóstico Diferencial
Laringofaringe por Refluxo (RLF)
- Pigarro matinal
- Globus faríngeo
- Sem azia clássica
- Piora após refeições
Testes Diagnósticos
- pHmetria faríngea 24h com impedância
- Nasolaringoscopia (edema aritenoideu)
- Resposta empírica a IBP duplo
Acupuntura pode reduzir o tônus do esfíncter esofágico inferior e modular o reflexo de tosse.
STAV com Gotejamento Pós-nasal
- Rinorreia posterior
- Tosse noturna
- Obstrução nasal
- Piora de rinite ou sinusite
Testes Diagnósticos
- TC de seios paranasais
- Testes alérgicos
- Nasofibroscopia
Acupuntura para rinite alérgica pode reduzir o gotejamento pós-nasal como causa contributória.
Síndrome de Sjögren
- Xerostomia intensa
- Xeroftalmia
- Artralgia
- Fadiga crônica
- Parotidite recorrente pode indicar linfoma de MALT
Testes Diagnósticos
- Anti-SSA/Ro
- Anti-SSB/La
- Sialometria
- Biópsia de glândula salivar menor
Lesão Maligna de Faringe
- Dor unilateral persistente
- Otalgia reflexa
- Disfagia progressiva
- Nódulo cervical
- Tabagismo/alcoolismo
- Qualquer sinal acima é bandeira vermelha — nasolaringoscopia e TC urgente
Testes Diagnósticos
- Nasolaringoscopia com biópsia
- TC/RM cervical
- PET-CT
Candidíase Faríngea
- Placas brancas removíveis
- Ardência faríngea
- Imunossupressão
- Uso crônico de corticóide inalatório
Testes Diagnósticos
- Cultura fúngica de swab faríngeo
- Resposta ao fluconazol
Refluxo Laringofaríngeo: A Causa Mais Negligenciada
O refluxo laringofaríngeo (RLF) é responsável por 50-60% dos casos de faringite crônica e frequentemente não é diagnosticado porque a maioria dos pacientes não têm azia. O médico deve ter alta suspeição clínica: pigarro matinal, globus faríngeo e tosse seca noturna são os marcadores mais sensíveis. A nasolaringoscopia com achados de edema e eritema da região posterior da laringe e aritenoides confirma a suspeita.
A distinção do RLF do gotejamento pós-nasal (STAV) pode ser difícil, pois ambos coexistem frequentemente. Uma abordagem prática: tratar primeiro o refluxo com IBP em dose dobrada por 8-12 semanas; se resposta incompleta, investigar e tratar rinite/sinusite subjacente.
Bandeiras Vermelhas na Faringite Crônica
Dor faríngea unilateral, otalgia reflexa ipsilateral (dor de ouvido sem otite), disfagia progressiva, nódulo cervical palpável ou perda de peso inexplicada são sinais de alarme que exigem investigação imediata para exclusão de neoplasia de faringe ou hipofaringe. O câncer de hipofaringe é particularmente traiçoeiro — frequentemente diagnosticado em estágio avançado por apresentação precoce com sintomas inespecíficos.
A candidíase faríngea deve ser considerada em qualquer paciente com faringite crônica e imunossupressão, uso de corticóide inalatório sem higiene bucal adequada ou HIV não investigado. O tratamento antifúngico sistêmico geralmente resolve rapidamente.
Síndrome de Sjögren e Faringite Seca
A síndrome de Sjögren primária pode manifestar-se com faringite crônica seca como queixa predominante, precedendo o diagnóstico formal da doença autoimune. A xerostomia intensa — com fluxo salivar reduzido à sialometria — priva a mucosa faríngea de sua proteção natural, resultando em inflamação crônica, disfagia alta e sensação de corpo estranho persistente. O teste de Schirmer documentando xeroftalmia e a biópsia de glândula salivar menor demonstrando sialadenite linfocítica focal confirmam o diagnóstico. A pesquisa de anti-Ro/SSA deve ser realizada em toda mulher adulta com xerostomia e faringite crônica sem causa identificada pelo RLF.
O tratamento da síndrome de Sjögren com sialogogos (pilocarpina oral) e imunossupressores (conforme indicação reumatológica) melhora indiretamente a faringite seca. Protocolos de acupuntura em pontos como ST6, ST7 e CV24 são estudados em Sjögren com evidência limitada — alguns ensaios pequenos sugerem aumento do fluxo salivar, mas revisões sistemáticas (Cochrane 2013) consideram a evidência insuficiente para conclusão firme. O médico acupunturista deve trabalhar em colaboração com reumatologista no manejo desses pacientes.
Tratamento
O tratamento da faringite crônica e direcionado a causa subjacente. A abordagem empirica sem investigação etiologica adequada e a principal razão de falha terapêutica.
Tratamento do Refluxo Laringofaringeo
Inibidores de bomba de protons (IBP) em dose dobrada por 8-12 semanas, medidas dietéticas (evitar alimentos ácidos, café, alcool), não deitar após refeições, elevação da cabeceira. Alginatos como adjuvante para proteção da mucosa faringea.
Tratamento do Gotejamento Pós-Nasal
Corticosteroide nasal topico para rinite alérgica, lavagem nasal com solução salina, antibioticoterapia prolongada ou cirurgia para sinusite crônica refrataria.
Medidas Gerais
Cessação tabágica, hidratação adequada (2-3 litros de água por dia), umidificação do ambiente, evitar ar-condicionado excessivo, higiene vocal, redução do uso de alcool.
Abordagens Complementares
Acupuntura para modulação do reflexo de tosse e redução da inflamação, fonoterapia para habitos vocais deletérios, manejo do estresse e ansiedade (que amplificam a percepção dos sintomas).
Acupuntura como Tratamento
Entre os mecanismos propostos para a acupuntura na faringite crônica estão a modulação do reflexo de tosse e pigarro via nervo vago, possível efeito sobre a inflamação local da mucosa faríngea, influência na motilidade esofágica (com potencial redução do refluxo) e modulação da percepção sensorial faríngea — hipóteses apoiadas em estudos clínicos e pré-clínicos de qualidade variável.
Alguns estudos sugerem que a acupuntura pode reduzir a sensação de globus faríngeo, a frequência do pigarro e a tosse seca, embora a heterogeneidade metodológica limite conclusões firmes. A eletroacupuntura em pontos cervicais anteriores parece ter efeito sobre o tônus do esfíncter esofágico superior, com potencial redução de episódios de refluxo.
A acupuntura e particularmente útil na faringite crônica funcional — quando os fatores orgânicos foram tratados mas os sintomas persistem por hipersensibilidade da mucosa. Nesses casos, a modulação central da percepção sensorial pela acupuntura pode quebrar o ciclo de hipersensibilidade-pigarro-inflamação.
Prognóstico
O prognóstico da faringite crônica e favorável quando o fator causal e identificado e tratado adequadamente. A faringite por refluxo melhora em 60-70% dos casos com IBP em dose adequada e medidas dietéticas. A recidiva e frequente se o tratamento for suspenso precocemente.
A faringite crônica hipertrofica (granulosa) pode responder a cauterização quimica (ácido tricloroacetico) ou a laser das granulações em casos refratarios. A forma atrofica e a de pior prognóstico — a atrofia glandular e parcialmente irreversível, mas a hidratação e umidificação aliviam significativamente os sintomas.
A eliminação de fatores perpetuadores (tabagismo, respiração oral, exposição a irritantes) e essencial para prevenir recidivas. A correção da obstrução nasal (septoplastia, turbinectomia) para restaurar a respiração nasal pode resolver definitivamente a faringite em pacientes com respiração oral crônica.
Mitos e Fatos
Mito vs. Fato
Faringite crônica e causada por bacterias e precisa de antibioticos
A faringite crônica raramente e infecciosa. As principais causas são refluxo, gotejamento pós-nasal e irritantes ambientais. Antibioticos não são indicados na maioria dos casos.
Se não tenho azia, não posso ter refluxo
O refluxo laringofaringeo e frequentemente "silencioso" — até 30% dos pacientes não têm azia. A pepsina causa lesão faringea mesmo sem sintomas esofagicos típicos.
Gargarejos com antisepticos curam faringite crônica
Antisepticos podem aliviar temporariamente mas não tratam a causa. O uso crônico de clorexidina pode alterar a flora oral e causar manchamento dental.
Chupar pastilhas e suficiente para tratar
Pastilhas proporcionam alívio sintomatico transitório pela analgesia local e salivação, mas não tratam a inflamação crônica nem seus fatores causais.
Faringite crônica pode virar cancer
A faringite crônica por si só não e pré-cancerosa. Porem, os mesmos fatores de risco (tabagismo, alcool) que causam faringite crônica também são fatores de risco para cancer de faringe.
Quando Procurar Ajuda
Sintomas faringeos persistentes devem ser investigados para exclusão de causas graves.
Perguntas Frequentes sobre Faringite Crônica
É a sensação de corpo estranho ("bola") na garganta que não impede a deglutição. É o sintoma mais frequente da faringite crônica, especialmente associada ao refluxo laringofaríngeo. Não indica obstrução real — o exame é normal ou mostra apenas edema da mucosa.
Sim. O pigarro habitual é uma resposta reflexa que irrita ainda mais a mucosa faríngea, criando um ciclo vicioso: irritação → pigarro → mais irritação. O médico e o fonoaudiólogo podem orientar técnicas para suprimir o pigarro e quebrar esse ciclo.
Sim. O refluxo laringofaríngeo (RLF) é frequentemente "silencioso" — até 30% dos pacientes não têm azia ou queimação. O conteúdo gástrico atinge a faringe sem causar sintomas esofágicos típicos. Pigarro matinal, globus e tosse seca noturna são as principais manifestações.
Raramente. A faringite crônica quase nunca é infecciosa. As principais causas são refluxo, gotejamento pós-nasal, irritantes ambientais e tabagismo. Antibióticos não estão indicados na maioria dos casos e podem alterar a flora oral e causar resistência.
O tratamento do RLF com inibidores de bomba de prótons (IBP) em dose dobrada deve durar no mínimo 8-12 semanas. A mucosa faríngea demora mais para cicatrizar do que a esofágica. Suspensão prematura é a principal causa de recidiva. O médico avalia a necessidade de manutenção.
Sim, especialmente no componente funcional. A acupuntura pode modular o reflexo de tosse e pigarro via nervo vago, reduzir a hipersensibilidade da mucosa faríngea e regular a motilidade esofágica. É particularmente útil quando os fatores orgânicos foram tratados mas os sintomas funcionais persistem.
A faringite crônica por si não é pré-cancerosa. Porém, sintomas de alarme devem ser investigados imediatamente: dor unilateral persistente, otalgia reflexa, disfagia progressiva, nódulo cervical ou perda de peso. Tabagismo e alcoolismo são os principais fatores de risco para neoplasia de faringe.
Sim. O ar-condicionado resseca e resfria a mucosa faríngea, especialmente na forma atrófica. A umidificação do ambiente e o uso de máscaras umidificadas em ambientes muito secos pode reduzir os sintomas. Evitar exposição direta ao fluxo de ar frio é recomendado.
Proporcionam alívio sintomatico transitório pela analgesia local e estimulação da salivação. Não tratam a causa da faringite crônica. Pastilhas com mentol ou eucalipto podem ter efeito anti-inflamatório discreto na mucosa faríngea. Não devem substituir a investigação etiológica.
Procure avaliação urgente se: dor de garganta unilateral persistente, dificuldade para engolir, rouquidão por mais de 3 semanas, perda de peso inexplicada, nódulo no pescoço ou dor de ouvido sem otite (otalgia reflexa). Esses sinais podem indicar neoplasia e exigem nasolaringoscopia e exames de imagem.
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