O que são

Os neurolépticos (também chamados antipsicóticos) são uma classe originalmente desenvolvida para manejo de psicose. O uso em dor é amplamente off-label e restrito a cenários específicos — não fazem parte das diretrizes de dor crônica como 1ª ou 2ª linha. 1ª geração (típicos) — clorpromazina e haloperidol — têm uso consolidado em psiquiatria e, em dor, aplicação pontual em status migranoso em emergência. 2ª geração (atípicos) — olanzapina, quetiapina, risperidona — têm uso quase totalmente restrito a cuidados paliativos (náusea refratária, sofrimento em fim de vida). A exceção com evidência robusta é olanzapina em náusea por quimioterapia — indicação específica, não analgesia propriamente dita.

01

Classe antipsicótica, uso em dor off-label

Desenhados para psicose; aplicação em dor é restrita e quase sempre fora de bula. Não estão em protocolos de dor crônica como 1ª ou 2ª linha.

02

Indicações restritas

Status migranoso em emergência (clorpromazina, haloperidol IV), náusea refratária em quimioterapia/paliativos (olanzapina), dor refratária em paliativos como coadjuvante.

03

Perfil de risco desfavorável para uso crônico

Extrapiramidais, metabólicos, prolongamento de QT e risco cardiovascular em idosos (black box FDA) limitam uso prolongado em dor comum.

Neurolepticos em dor: uso restrito a cenarios específicos (enxaqueca intratavel, nausea em oncologia, dor refrataria em paliativos)
Neurolepticos em dor: uso restrito a cenarios específicos (enxaqueca intratavel, nausea em oncologia, dor refrataria em paliativos)
Neurolepticos em dor: uso restrito a cenarios específicos (enxaqueca intratavel, nausea em oncologia, dor refrataria em paliativos)

Mecanismo de ação

O mecanismo central é o antagonismo de receptores D2 de dopamina nas vias mesolímbica e nigroestriatal — base do efeito antipsicótico e da antiemese central. Em dor, a hipótese de ação analgésica invoca modulação dopaminérgica central das vias nociceptivas, mas a evidência de mecanismo analgésico específico é fraca comparada a opioides, anticonvulsivantes e antidepressivos. A heterogeneidade clínica vem do antagonismo multirreceptor: além de D2, há bloqueio de 5-HT2 (sedação, metabólicos), α1-adrenérgico (hipotensão — clorpromazina), H1 (sedação, ganho de peso) e muscarínico (anticolinérgicos — boca seca, retenção urinária, risco cognitivo em idosos). Em emergência migranosa, o efeito combina antagonismo D2, sedação e possível modulação trigeminal; em náusea por QT, D2 + 5-HT2 no centro do vômito sustenta eficácia antiemética — indicação distinta de "tratar dor".

Via Farmacológica dos Neurolépticos

  1. Antagonismo D2 + receptores 5-HT2/α1/H1

    Bloqueio de múltiplos receptores centrais; cada molécula têm afinidades distintas (clorpromazina predomina α1 e H1; haloperidol é mais seletivo em D2; atípicos com maior 5-HT2).

  2. Modulação central dopaminérgica (hipótese analgésica)

    Hipótese de modulação das vias dopaminérgicas de processamento da dor central — evidência mecanística fraca em dor crônica não-oncológica.

  3. Efeito antiemético central

    Antagonismo D2 e 5-HT2 no centro do vômito sustenta uso em náusea refratária por opioides e por quimioterapia (indicação com evidência mais sólida que analgesia).

  4. Sedação + efeitos adversos (extrapiramidais, metabólicos)

    Perfil de efeitos adversos substancial: sintomas extrapiramidais (tremor, rigidez, acatisia), metabólicos (ganho de peso, diabetes com 2ª geração), cardiovasculares (QT, hipotensão), risco em idosos.

Evidência científica

A leitura honesta é desconfortável para quem espera ver neurolépticos legitimados como analgésicos: em dor crônica nociceptiva ou neuropática, a evidência é baixa ou ausente; em cenários emergenciais e paliativos específicos, há suporte razoável. A pergunta relevante é sempre "qual molécula, em qual indicação, em qual contexto".

Em enxaqueca refratária em emergência, Lobo et al. (Cephalalgia 2015) e Friedman et al. (Headache 2014) sustentam evidência moderada para clorpromazina e haloperidol IV em status migranoso após falha de triptanos, AINEs parenterais e antieméticos. O uso é pontual, hospitalar e não crônico — não profilaxia nem tratamento ambulatorial. Em náusea por quimioterapia, Navari et al. (N Engl J Med) consolidou olanzapina como adição de alta eficácia ao regime antiemético padrão em esquemas altamente emetogênicos — evidência de alta qualidade, mas a indicação é antiemese, não analgesia. Em paliativos, Hardy et al. (Palliat Med) descreve uso em dor refratária com sofrimento existencial, indicação especializada fora do escopo de dor crônica ambulatorial.

O contraponto: NICE, IASP e SBED não incluem neurolépticos em protocolos de dor crônica primária, lombalgia, fibromialgia ou dor neuropática. A ausência reflete falta de evidência e perfil de risco desfavorável para uso crônico; revisões críticas apontam quetiapina em baixa dose para insônia em dor crônica como prática popular desconectada da base científica.

Indicações restritas

As indicações abaixo são a totalidade dos cenários em que, com a literatura atual, faz sentido considerar neurolépticos em dor. O ponto não é ampliar o uso — é ter clareza sobre as fronteiras onde a classe têm alguma base.

Critérios clínicos
05 itens

Onde Neurolépticos Podem Ter Papel

  1. 01

    Status migranoso em emergência hospitalar

    Clorpromazina IV 12,5-25 mg ou haloperidol IV 2-5 mg como opção após falha de linhas iniciais (triptanos, AINEs parenterais, antieméticos). Uso pontual, não crônico, sob monitoramento de PA e ECG.

  2. 02

    Náusea severa associada a opioides ou quimioterapia

    Especialmente em paliativos e em regimes altamente emetogênicos — olanzapina têm evidência robusta (Navari et al.). Haloperidol em dose baixa é antiemético clássico em cuidados paliativos.

  3. 03

    Dor refratária em cuidados paliativos (coadjuvante)

    Após falha de múltiplas linhas analgésicas, com sofrimento psíquico associado ("sofrimento total"). Indicação especializada, conduzida por médico paliativista ou da dor.

  4. 04

    Sofrimento existencial em fim de vida

    Uso no contexto de cuidados paliativos avançados para manejo de agitação, delirium e sofrimento — NÃO é "sedação terminal" padronizada e demanda treinamento específico.

  5. 05

    NÃO indicados em dor crônica comum

    Dor musculoesquelética crônica, lombalgia inespecífica, fibromialgia, enxaqueca profilaxia, dor neuropática comum. O uso rotineiro nessas condições não têm respaldo em diretrizes e expõe o paciente a riscos sem benefício proporcional.

Como são usados

O uso em dor é quase sempre em ambiente hospitalar ou paliativo especializado. Auto-prescrição ou uso ambulatorial crônico em dor não-paliativa é prática inadequada. O monitoramento obrigatório — ECG, extrapiramidais, parâmetros metabólicos — é incompatível com uso rotineiro sem acompanhamento estruturado.

Contextos de Uso dos Neurolépticos em Dor

Cenário 1
dose única
Status migranoso em emergência

Clorpromazina IV 12,5-25 mg com hidratação prévia; ou haloperidol IV 2-5 mg. Dose única com monitoramento de PA e ECG — uso pontual, não ambulatorial.

Cenário 2
dias a ciclo de QT
Náusea em quimioterapia ou paliativo

Olanzapina 5-10 mg/dia VO como adição ao regime antiemético em QT altamente emetogênica (Navari et al.). Haloperidol 0,5-2 mg VO/SC 2-3×/dia em paliativos.

Cenário 3
contextual
Dor refratária em paliativo

Dose titulada individualmente, após falha de múltiplas linhas, com sofrimento psíquico associado. Conduzido por paliativista ou médico da dor.

Monitoramento
durante todo o uso
ECG, extrapiramidais, metabólicos

ECG basal e conforme dose/interações; avaliação de extrapiramidais em toda consulta; glicemia e lipídios em uso prolongado de atípicos; sódio e função renal em idosos.

Uso em paliativos: neurolepticos em nausea refrataria ou sofrimento existencial em fim de vida; indicação especializada com monitoramento
Uso em paliativos: neurolepticos em nausea refrataria ou sofrimento existencial em fim de vida; indicação especializada com monitoramento
Uso em paliativos: neurolepticos em nausea refrataria ou sofrimento existencial em fim de vida; indicação especializada com monitoramento

Neurolépticos disponíveis no Brasil

Todos exigem prescrição. Clorpromazina e haloperidol têm cobertura no SUS pelo histórico psiquiátrico. O uso em dor é praticamente sempre hospitalar (emergência ou paliativo) — prescrição ambulatorial crônica em dor comum é marginal em termos de evidência.

NEUROLÉPTICOS COM USO EM DOR NO BRASIL

PRINCÍPIO ATIVOMARCASAPRESENTAÇÃOUSO TÍPICO EM DOROBSERVAÇÕES
ClorpromazinaAmplictil25-100mg cp; gotas 40mg/mL; ampola 25mg/5mLStatus migranoso IV 12,5-25mg; náusea/vômito refratário VO 10-25mgSedação intensa; hipotensão
HaloperidolHaldol, genérico1-5mg cp; ampola 5mg/mL; gotasEnxaqueca intratável IV 2-5mg; náusea paliativa VO 1-2mgRisco QT; extrapiramidais
OlanzapinaZyprexa, Zap, Zopix, Axonium, Olanzap, genérico2,5-5-10mg cpNáusea em quimioterapia/paliativos 2,5-10mg/diaGanho de peso; metabólico
QuetiapinaSeroquel, genérico25-100-200mg cpInsônia em dor crônica (uso CONTROVERSO — fora de indicação)Sedação; metabólico; risco QT
RisperidonaRisperdal, genérico1-2-3mg cpUso muito restrito em dor; mais em agitação paliativaExtrapiramidais; prolactina

Observação clínica: quetiapina para insônia em dor crônica é prática difundida mas off-label e não recomendada por diretrizes. Para insônia associada a dor crônica, amitriptilina em dose baixa, trazodona ou intervenções não-farmacológicas (higiene do sono, TCC-I) têm perfil risco-benefício mais favorável — menor risco metabólico, cognitivo e cardiovascular a longo prazo.

Posologia, interações e populações especiais

Idosos. RISCO AUMENTADO de mortalidade CV em demência — black box FDA para toda a classe. Evitar como rotina; em paliativos, dose mínima + curta duração. Risco de queda, confusão e extrapiramidais é somado. Cardiopatas. ECG basal obrigatório — haloperidol IV, ziprasidona e clorpromazina prolongam QT; em QTc > 450 ms (homens) ou > 470 ms (mulheres), avaliação cardiológica prudente. Parkinson e demência com corpos de Lewy. Contraindicação relativa a típicos (pioram rigidez, precipitam quedas); em Lewy, hipersensibilidade grave é marca da doença — quetiapina baixa é "menos pior", clozapina é alternativa especializada. Glaucoma ângulo fechado. Contraindicados (anticolinérgicos). Gestantes e lactantes. Uso em dor é excepcional; quando indispensável, decisão compartilhada com obstetra e psiquiatra.

Efeitos adversos, riscos e contraindicações

O perfil de riscos é o principal motivo pelo qual o uso em dor é limitado — efeitos adversos substanciais e recorrentes, com apresentações graves (síndrome neuroléptica maligna, torsades, discinesia tardia irreversível). Em dor crônica comum, onde há alternativas, os riscos não compensam.

Contraindicações absolutas: hipersensibilidade; coma ou depressão grave do SNC; discrasia sanguínea grave; síndrome neuroléptica maligna prévia; QT significativamente prolongado sem correção. Relativas: Parkinson ou Lewy (típicos), glaucoma de ângulo fechado, hipertrofia prostática sintomática, insuficiência hepática/renal grave, feocromocitoma.

Limitações e o que ainda não se sabe

A lacuna não é "talvez funcionem em dor e ainda não sabemos" — é que a evidência consistentemente não sustenta uso em dor crônica comum, enquanto os riscos são consistentemente documentados. Parte do uso atual deriva de prática histórica, não de dados robustos.

Mito vs. Fato

MITO

Quetiapina em dose baixa é um bom indutor do sono para quem têm dor crônica

FATO

Uso off-label amplamente difundido mas SEM suporte em diretrizes. O efeito hipnótico de quetiapina 25-50 mg é modesto e vem do anti-histaminérgico, não de ação específica de classe. Em contrapartida há risco de ganho de peso, síndrome metabólica, prolongamento de QT, acatisia e efeito cognitivo residual. Alternativas com melhor perfil de risco-benefício: amitriptilina 10-25 mg à noite em paciente com dor e sono ruim, trazodona em dose hipnótica, higiene do sono estruturada, terapia cognitivo-comportamental para insônia (TCC-I — maior efeito sustentado). A facilidade da prescrição de quetiapina não é argumento clínico.

Lacunas Centrais

Evidência em dor crônica é escassa e heterogênea. Ensaios em dor crônica não-oncológica são pequenos, metodologicamente limitados e frequentemente negativos. Nenhuma meta-análise justifica uso rotineiro em lombalgia, fibromialgia, neuropatia periférica ou enxaqueca profilaxia. Preditores individuais de resposta não estão estabelecidos — diferente de outras classes (carbamazepina em neuralgia do trigêmeo, NNT ~2-3), não há biomarcador nem subgrupo em dor crônica comum que permita prever benefício com confiança.

Dados de longo prazo em uso analgésico são ausentes — o que se sabe vem da psiquiatria, onde o contexto de decisão é distinto. A prescrição off-label de quetiapina/olanzapina para "insônia em dor crônica" é prática com risco significativo e benefício duvidoso: a literatura hipnótica não respalda neurolépticos em baixa dose fora de contextos específicos.

Relação com a acupuntura médica

A interação prática entre acupuntura médica e neurolépticos é baixa — os cenários de uso divergem (neurolépticos em emergência hospitalar ou paliativo; acupuntura predominantemente ambulatorial). Não há restrição combinatória farmacológica. Em paliativos, a acupuntura pode oferecer alívio de náusea e ansiedade sem os efeitos adversos dos antipsicóticos — o ponto clássico PC6 (Neiguan) têm literatura consistente em náusea e vômito pós-operatórios e em quimioterapia.

NEUROLÉPTICOS VS. ACUPUNTURA MÉDICA

ASPECTONEUROLÉPTICOSACUPUNTURA MÉDICA
Status migranoso emergencialAlto (uso pontual, hospitalar)Baixo (não é cenário emergencial)
Náusea por quimioterapiaModerado-alto (olanzapina)Alto (PC6 — ponto clássico)
Dor crônica comumBaixo / não indicadoModerado
Insônia em dor crônicaPrática off-label questionávelPapel adjuvante discreto
Dor em paliativo refratárioPapel especializadoComplementar sem interação
Perfil de efeitos adversosDesfavorável (extrapiramidal, metabólico, QT)Favorável (eventos sérios raros)

Quando procurar ajuda médica

O uso agudo em emergência (enxaqueca) ocorre no ambiente hospitalar sem decisão prévia do paciente. Em uso ambulatorial (paliativo ou off-label), alguns sinais pedem contato precoce com o médico assistente, outros caracterizam emergência clínica.

PERGUNTAS FREQUENTES · 05

Perguntas Frequentes sobre Neurolépticos em Dor

Prática amplamente difundida sem respaldo em diretrizes. O suposto benefício hipnótico da quetiapina em baixa dose (25-50 mg) vem do efeito anti-histamínico — não de uma ação específica da classe. O uso prolongado traz risco de ganho de peso, alteração metabólica, prolongamento de QT, acatisia e efeito cognitivo residual. Alternativas mais bem embasadas: amitriptilina 10-25 mg à noite, trazodona em dose hipnótica, higiene do sono estruturada e terapia cognitivo-comportamental para insônia (TCC-I). Se você já usa quetiapina por esse motivo, vale conversar com o médico sobre desescalar.

Em status migranoso (crise que não responde ao tratamento usual), haloperidol IV em dose única é opção após falha de triptanos, AINEs parenterais e antieméticos (Friedman et al., Headache 2014). Uso pontual, hospitalar, com monitoramento de PA e ECG. NÃO constitui profilaxia ambulatorial nem tratamento crônico — têm lugar na emergência, não no acompanhamento domiciliar.

Não — classes distintas. Neurolépticos (antipsicóticos) bloqueiam D2 de dopamina; usos principais em psicose e bipolar grave, em dor apenas em indicações restritas. Antidepressivos atuam em serotonina e noradrenalina, modulando vias descendentes de dor — por isso têm papel estabelecido em dor crônica (neuropática, fibromialgia, enxaqueca profilaxia). Os artigos sobre antidepressivos e anticonvulsivantes em dor discutem essas classes em detalhe.

Não como regra. Em paliativos, neurolépticos em baixa dose manejam sintomas específicos — náusea refratária, delirium, agitação psicomotora, sofrimento psíquico associado à dor. Sedação pode ocorrer como efeito adverso, e em fim de vida a sedação pode integrar a indicação quando o sofrimento é refratário. Mas "sedação paliativa" é decisão específica, com protocolo e consentimento claros — não se confunde com o uso amplo de neuroléptico em paliativo.

Olanzapina têm evidência de alta qualidade (Navari et al., N Engl J Med) como adição ao regime antiemético padrão em quimioterapia altamente emetogênica. A prescrição é feita pelo oncologista ou paliativista, em combinação com antagonistas 5-HT3, corticoide e, quando indicado, aprepitanto. Dose, duração e monitoramento fazem parte do protocolo individualizado — não é auto-prescrição.