O que é a f-ESWT

A terapia por ondas de choque focais — conhecida pela sigla f-ESWT (focal Extracorporeal Shock Wave Therapy) — utiliza ondas acústicas de pressão de alta energia focalizadas em um ponto específico do tecido. Diferentemente de outras modalidades de ondas de choque, o feixe energético da f-ESWT concentra sua energia em uma zona alvo pequena, tipicamente da ordem de 6 a 8 mm³, permitindo tratamento profundo e preciso de estruturas como enteses tendíneas, calcificações e focos dolorosos localizados.

Existem três tecnologias de geração das ondas, com características técnicas distintas: eletromagnética (EM), atualmente a mais difundida em equipamentos modernos, com boa reprodutibilidade e amplo espectro energético; eletro-hidráulica (EH), a tecnologia original — usada em litotripsia renal desde a década de 1980 — hoje menos empregada na prática musculoesquelética por variabilidade maior entre pulsos; e piezoelétrica (PE), a mais precisa em termos de foco, com menor potência máxima, empregada em indicações que exigem zona de tratamento bem delimitada.

É importante distinguir a f-ESWT das ondas de choque radiais (r-ESWT). A r-ESWT gera uma onda que se dissipa radialmente a partir do ponto de aplicação, com energia máxima na superfície e atenuação progressiva em profundidade — é uma modalidade essencialmente superficial. A f-ESWT, por contraste, atinge profundidades de até 12 cm com foco pontual, concentrando a energia em plano profundo. A diferença não é apenas técnica: as indicações, os parâmetros e os resultados esperados são distintos. O parâmetro-chave da f-ESWT é a densidade de energia, expressa em mJ/mm²: baixa (< 0,10), média (0,10-0,30) e alta (> 0,30), escolhida conforme o tecido alvo e a condição tratada.

01

Foco Pontual em Profundidade

Feixe energético concentrado em zona de 6-8 mm³, com penetração de até 12 cm — permite tratar enteses profundas, calcificações tendíneas e focos bem delimitados.

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Três Tecnologias de Geração

Eletromagnética (mais comum hoje), eletro-hidráulica (original) e piezoelétrica (maior precisão, menor potência). A escolha do equipamento influência parâmetros e resultado.

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Densidade de Energia Dosável

Parâmetro-chave em mJ/mm²: baixa (<0,10), média (0,10-0,30) e alta (>0,30). Ajustada conforme tecido alvo, cronicidade e objetivo terapêutico.

Esquema da f-ESWT: gerador eletromagnético focaliza ondas acústicas em zona alvo profunda de 6-8mm³ com energia de 0.15-0.40 mJ/mm2
Esquema da f-ESWT: gerador eletromagnético focaliza ondas acústicas em zona alvo profunda de 6-8mm³ com energia de 0.15-0.40 mJ/mm2
Esquema da f-ESWT: gerador eletromagnético focaliza ondas acústicas em zona alvo profunda de 6-8mm³ com energia de 0.15-0.40 mJ/mm2

Mecanismo de ação

Os efeitos da f-ESWT não decorrem de um único mecanismo, mas de uma cascata biológica combinando micro-trauma controlado, resposta regenerativa e modulação neural direta. O evento físico inicial é a passagem do pulso de alta pressão pelo tecido, que gera cavitação — formação e colapso abrupto de microbolhas no líquido intersticial. Esse fenômeno produz um micro-trauma tecidual controlado, deliberadamente sub-lesional, que funciona como gatilho para a cascata de cicatrização tecidual.

Em resposta ao micro-estímulo, há liberação local de fatores de crescimento: VEGF (fator de crescimento endotelial vascular), TGF-β (fator de crescimento transformador beta), BMP-2 (proteína morfogenética óssea) e FGF. Essa sinalização induz angiogênese e neovascularização — formação de novos capilares em áreas de tendinopatia crônica, onde o tecido habitualmente se encontra em estado hipovascular e degenerativo. O resultado, observado em estudos histológicos, é a substituição progressiva do tecido tendíneo degenerado por matriz mais organizada.

Paralelamente, o pulso acústico exerce um efeito analgésico direto por denervação seletiva de fibras nociceptivas não-mielinizadas (fibras C) e mielinizadas finas (Aδ) — mecanismo que explica o alívio relativamente rápido da dor, frequentemente antes da remodelação tecidual completa. Em calcificações tendíneas, acrescenta-se ainda um efeito mecânico direto sobre o depósito de hidroxiapatita: a energia acústica fragmenta e contribui para a dissolução progressiva da calcificação, efeito documentado por imagem em casos de tendinopatia calcárea do ombro.

A combinação desses mecanismos — tecidual, neural e, em indicações específicas, mecânico direto — é o que diferência a f-ESWT de outras modalidades analgésicas. Não é apenas uma técnica de alívio sintomático: a intenção terapêutica inclui modificação estrutural do tecido-alvo, particularmente em tendinopatias crônicas com alteração histológica estabelecida.

Cascata Biológica da f-ESWT

  1. Pulsos focalizados de alta energia

    Ondas acústicas de pressão (0,15-0,40 mJ/mm²) concentradas em zona alvo profunda de 6-8 mm³, tipicamente 2000-3000 pulsos por sessão.

  2. Micro-trauma controlado e cavitação

    Formação e colapso de microbolhas no tecido geram estímulo mecânico sub-lesional, gatilho para a cascata de cicatrização.

  3. Liberação de VEGF, TGF-β e FGF

    Fatores de crescimento ativam resposta regenerativa local, promovendo matriz tecidual mais organizada em áreas previamente degenerativas.

  4. Angiogênese, neovascularização e denervação seletiva

    Formação de novos capilares reverte hipovascularização da tendinopatia crônica; denervação seletiva de fibras C e Aδ produz analgesia direta.

Evidência por condição

A f-ESWT é uma das modalidades de medicina da dor com evidência mais condição-específica — não é razoável falar em "ondas de choque funcionam" como generalização. Para algumas indicações, a literatura acumulou evidência robusta e diretrizes internacionais reconhecem a técnica como opção estabelecida; para outras, os dados são limitados ou ausentes. A leitura honesta exige separar indicação por indicação.

Em fascite plantar crônica, a meta-análise de Aqil et al. (2013) agregou ECRs de qualidade moderada-alta e estimou efeito clínico substancial, com diferença padronizada de médias (SMD) de -0,78 (IC 95% -1,17 a -0,39) em favor da f-ESWT versus controle. Esse tamanho de efeito é clinicamente relevante e relativamente consistente entre estudos com mais de 6 meses de cronicidade. A técnica está incluída entre as opções terapêuticas reconhecidas em diretrizes ortopédicas internacionais para fascite plantar refratária a tratamento conservador inicial.

Em tendinopatia calcárea do ombro, a evidência é particularmente robusta. Revisões sistemáticas — incluindo Bannuru et al. — documentam taxas de resolução parcial ou completa do depósito de hidroxiapatita entre 60 e 80% após protocolo de alta energia, com redução significativa de dor e ganho funcional. A combinação de efeito mecânico direto sobre a calcificação e estímulo regenerativo tecidual explica a magnitude do benefício. A técnica é endossada pela AAOS (American Academy of Orthopaedic Surgeons) e pela ESBOT (European Society for Surgery of the Shoulder and Elbow / European Society for Medical Musculoskeletal Interventions) como opção estabelecida nessa indicação.

Em epicondilite lateral crônica ("cotovelo de tenista"), a evidência é de qualidade moderada. ECRs agregados apontam NNT (número necessário para tratar) entre 4 e 6, com benefício mais consistente em quadros > 6 meses refratários a fisioterapia e tratamento conservador inicial. Em tendinopatia patelar crônica ("joelho de saltador"), pequenos ECRs mostram resultados positivos, porém com amostras limitadas — a evidência é moderada, consistente com uso em falha de exercício excêntrico estruturado. Em tendinopatia de Aquiles, os dados são mistos: resultado moderado a baixo, geralmente inferior ao benefício documentado do programa de exercício excêntrico de Alfredson, que permanece como intervenção de primeira linha.

Em não-consolidação de fraturas (pseudartroses), a f-ESWT têm evidência de alta qualidade em estudos ortopédicos, com taxas de consolidação superiores a 70% em pseudartroses hipertróficas selecionadas — indicação endossada por sociedades de cirurgia ortopédica em múltiplos países. Por outro lado, em dor miofascial generalizada, fibromialgia e síndromes dolorosas difusas não focais, a evidência é insuficiente ou ausente, e a técnica não têm indicação estabelecida; a literatura nesse grupo é composta por estudos pequenos, heterogêneos e sem grupo controle adequado.

Uma lacuna importante é a ausência de ECRs grandes e multicêntricos em síndromes mistas — quadros em que coexistem tendinopatia focal e componente miofascial regional, cenário clínico comum. As diretrizes atuais refletem essa assimetria: apoio forte em indicações bem delimitadas e recomendações cautelosas (ou silêncio) em apresentações combinadas.

NÍVEL DE EVIDÊNCIA DA F-ESWT POR CONDIÇÃO

CONDIÇÃONÍVELNNT / DESFECHO RELATADO
Tendinopatia calcárea do ombroAltoResolução do depósito 60-80% (revisões sistemáticas)
Fascite plantar crônicaAltoSMD -0,78 (meta-análise Aqil 2013)
Epicondilite lateral crônicaModeradoNNT ~4-6
Tendinopatia patelar crônicaModeradoECRs pequenos positivos; n limitado
Tendinopatia do AquilesModerado-baixoMista; inferior ao excêntrico
Não-consolidação de fraturasAlto>70% de consolidação (pseudartrose hipertrófica)
Dor miofascial generalizadaBaixoEvidência insuficiente
Alto
NÍVEL DE EVIDÊNCIA EM TENDINOPATIA CALCÁREA
Endossado por AAOS e ESBOT
3-5
SESSÕES TÍPICAS EM PROTOCOLO
Intervalo semanal ou quinzenal
SMD -0,78
EFEITO EM FASCITE PLANTAR CRÔNICA
Aqil et al., meta-análise 2013

Indicações

As indicações da f-ESWT são definidas por duas variáveis principais: cronicidade (tipicamente > 3-6 meses de sintomas persistentes) e falha de tratamento conservador inicial adequado (fisioterapia estruturada, exercício específico por condição, manejo farmacológico pertinente). Nenhuma das indicações abaixo é de primeira linha — a f-ESWT ocupa posição de segunda ou terceira linha em praticamente todos os quadros, após a tentativa das modalidades com evidência mais consolidada para cada condição.

Critérios clínicos
06 itens

Indicações Reconhecidas da f-ESWT

  1. 01

    Fascite plantar crônica refratária (> 6 meses)

    Após falha de alongamento específico, palmilhas, controle de carga e fisioterapia estruturada. Meta-análise Aqil 2013 suporta benefício robusto (SMD -0,78).

  2. 02

    Tendinopatia calcárea do ombro com depósito visível em imagem

    Calcificação documentada em ultrassom ou radiografia, com dor e limitação funcional persistentes. Evidência forte, endosso da AAOS e ESBOT.

  3. 03

    Epicondilite lateral ou medial crônica

    Quadros > 3-6 meses refratários a exercício terapêutico e modificação de atividade. NNT estimado 4-6 em epicondilite lateral.

  4. 04

    Tendinopatia patelar crônica

    "Joelho de saltador" em fase não-reativa, após tentativa estruturada de exercício excêntrico. Evidência moderada em ECRs pequenos.

  5. 05

    Tendinopatia do Aquiles em fase crônica

    Estritamente em fase crônica, NÃO aguda reativa (< 6 semanas). Mesmo nesse cenário, exercício excêntrico de Alfredson permanece como primeira linha.

  6. 06

    Pseudartrose e não-consolidação de fraturas

    Em indicações ortopédicas selecionadas (pseudartrose hipertrófica), evidência de alta qualidade com taxas de consolidação > 70%.

Como é feito e o que esperar

A sessão de f-ESWT é realizada em consultório ou em centro de medicina física, com o paciente posicionado de modo a expor confortavelmente a região a ser tratada. Após identificação do ponto-alvo — por palpação clínica, orientação por ultrassom ou, em indicações específicas, fluoroscopia — aplica-se um gel de acoplamento acústico para garantir transmissão adequada das ondas. O transdutor é posicionado sobre a pele e a energia é aplicada em pulsos repetidos.

Os parâmetros típicos por sessão variam conforme a condição e o tecido: 2000 a 3000 pulsos por sessão, densidade de energia entre 0,15 e 0,40 mJ/mm², frequência de pulso de 4 a 8 Hz. Tecidos mais profundos e calcificações aceitam energia mais alta; áreas superficiais ou tendões com maior sensibilidade exigem dose intermediária. A aplicação é tipicamente guiada por ultrassom em indicações que dependem de localização precisa (tendinopatia calcárea, fascite plantar na inserção da fáscia), o que contribui para reprodutibilidade e segurança.

Cada sessão dura em média 15 a 30 minutos. O desconforto durante a aplicação é frequente — descrito como sensação de pancadas rítmicas sobre a região — e varia conforme a energia empregada e a sensibilidade individual. Em casos selecionados (especialmente em calcificações extensas ou pacientes com tolerância reduzida), pode-se considerar anestesia local no trajeto. O protocolo padrão contempla de 3 a 5 sessões, com intervalos semanais ou quinzenais, e reavaliação clínica entre 8 e 12 semanas após a última sessão, janela em que a resposta biológica (angiogênese, remodelação tecidual) se consolida.

Um ponto operacional essencial: a f-ESWT não substitui a reabilitação. O benefício mais consistente documentado na prática ocorre quando a técnica é parte de um programa que inclui exercício específico (excêntrico para tendinopatia de membro inferior, alongamento específico para fáscia plantar, reeducação de carga por modalidade). Aplicada isoladamente — sem plano de reabilitação associado —, a f-ESWT produz resultados inferiores e, em muitos casos, recorrência sintomática após a série de sessões.

Protocolo Clínico da f-ESWT

Etapa 1
1 consulta inicial
Avaliação médica e localização por imagem

Consulta com médico especialista: confirmação diagnóstica, caracterização da cronicidade, revisão do tratamento conservador já realizado, localização do ponto-alvo por ultrassom (ou fluoroscopia em indicações específicas).

Etapa 2
3-10 semanas
Série de sessões

Protocolo típico de 3-5 sessões semanais ou quinzenais. Parâmetros por sessão: 2000-3000 pulsos, 0,15-0,40 mJ/mm² de densidade de energia, ajustados conforme tecido alvo e tolerância.

Etapa 3
2-3 meses pós-série
Reavaliação clínica 8-12 semanas pós-última

Janela em que a resposta biológica (angiogênese, remodelação tecidual, dissolução de calcificação) consolida-se. Avaliação de dor, função e imagem controle quando pertinente.

Etapa 4
integrado ao plano
Programa de reabilitação associado

Exercício específico (excêntrico, alongamento, reeducação de carga), em paralelo ou sequência, conforme a condição. A f-ESWT aplicada isoladamente têm resultado inferior à combinação com reabilitação estruturada.

Aplicação de f-ESWT em calcaneo: transdutor sobre almofada de gel com guia ecografica localizando entese da fascia plantar
Aplicação de f-ESWT em calcaneo: transdutor sobre almofada de gel com guia ecografica localizando entese da fascia plantar
Aplicação de f-ESWT em calcaneo: transdutor sobre almofada de gel com guia ecografica localizando entese da fascia plantar

Efeitos adversos, riscos e contraindicações

A f-ESWT apresenta perfil de segurança favorável em mãos treinadas, com eventos adversos graves muito raros. No entanto, a técnica utiliza energia acústica alta e têm contraindicações absolutas bem definidas que devem ser rigorosamente checadas antes de cada sessão. Um risco específico — ruptura tendínea em tendinopatia reativa aguda — é suficientemente importante para merecer atenção particular no momento da indicação.

EFEITOS ADVERSOS COMUNS DA F-ESWT

EVENTOFREQUÊNCIACONDUTA
Dor durante a aplicação80-100%Ajuste gradual da energia; considerar anestesia local em casos selecionados
Petéquias e hematomas superficiais20-30%Autolimitados; regressão em 5-10 dias
Rash cutâneo transitório5-10%Benigno; regressão espontânea em 24-48 horas
Dor pós-aplicação (24-72h)20-30%Analgésico simples; aplicar frio local; evitar AINEs no dia da sessão
Ruptura tendíneaRara (< 0,1%)Associada a aplicação em tendinopatia reativa aguda; evitar nesse contexto

Atenção especial à fase reativa: a aplicação de f-ESWT em tendinopatia recente (< 6 semanas) é um dos erros clínicos mais relevantes. Nessa fase, o tecido ainda está em resposta inflamatória — a energia acústica deflagra cascata regenerativa sobre substrato inflamado, podendo agravar o quadro e, em casos raros, precipitar ruptura tendínea. A regra prática é clara: se a tendinopatia têm menos de 6 semanas de evolução, a f-ESWT não é indicação — o manejo é anti-inflamatório, controle de carga e aguardar a transição para a fase crônica antes de considerar a técnica.

Gravidez e epífises abertas: a gestação é contraindicação absoluta em qualquer trimestre, independentemente do local de aplicação, por princípio precaucional. Em crianças e adolescentes com epífises de crescimento ainda abertas, a aplicação sobre cartilagem de crescimento está formalmente contraindicada pelo potencial de interferência no desenvolvimento ósseo; aplicações sobre outros tecidos devem ser avaliadas caso a caso por especialista com experiência pediátrica.

Limitações e o que ainda não se sabe

Apesar da evidência robusta em indicações específicas, a f-ESWT enfrenta limitações metodológicas e práticas relevantes. O entusiasmo clínico — legítimo em tendinopatia calcárea e fascite plantar — não deve se estender por analogia a todas as síndromes dolorosas. A seguir, os pontos principais.

Mito vs. Fato

MITO

Ondas de choque focais funcionam em qualquer tendinopatia

FATO

A evidência é condição-específica. Forte para tendinopatia calcárea do ombro e fascite plantar; moderada para epicondilite e patelar; mista para Aquiles (inferior ao excêntrico) e incerta para dor miofascial generalizada. Protocolos e parâmetros variam significativamente entre fabricantes e não há consenso universal — resultados de um centro não se transferem automaticamente para outro com equipamento e protocolo diferentes.

Lacunas Centrais

Parâmetros não padronizados entre fabricantes. A densidade de energia, o número de pulsos, o intervalo entre sessões e o número total de sessões variam significativamente entre equipamentos (eletromagnéticos, eletro-hidráulicos, piezoelétricos) e entre protocolos de centros diferentes. Essa heterogeneidade limita a transferibilidade dos resultados publicados e dificulta meta-análises robustas fora de indicações muito bem delimitadas.

Poucos ECRs comparando f-ESWT vs r-ESWT diretamente. Apesar do uso clínico amplo de ambas as modalidades, a comparação cabeça-a-cabeça em condições específicas é limitada. A escolha entre focal e radial tende a se basear em considerações teóricas (profundidade do alvo, tipo de tecido) e em experiência do centro, mais do que em evidência comparativa direta de alta qualidade.

Eficácia em síndromes mistas pouco estudada. Quadros reais frequentemente combinam tendinopatia focal com componente miofascial regional, alteração biomecânica, sobrecarga ocupacional e componente central de sensibilização. ECRs conduzidos em populações com diagnóstico isolado não capturam esses cenários mistos, e a literatura é escassa sobre desfechos em apresentações combinadas.

Custo e acesso limitados. Os equipamentos de f-ESWT são onerosos, e a técnica requer treinamento específico. No SUS, a disponibilidade é rara fora de centros universitários e serviços de referência. Na saúde suplementar, a cobertura depende do rol da ANS e da política de cada operadora — frequentemente exige autorização prévia. Na rede particular, a oferta concentra-se em clínicas especializadas em medicina musculoesquelética ou ortopédica, com custo por sessão moderado a alto. Essa realidade operacional influência tanto a decisão clínica quanto a viabilidade prática para o paciente.

Relação com a acupuntura médica

f-ESWT e acupuntura médica operam por mecanismos fundamentalmente diferentes. A f-ESWT atua predominantemente no plano mecânico-tecidual: micro-trauma controlado, cavitação, liberação de fatores de crescimento e remodelação local. A acupuntura médica atua no plano neuromodulatório: ativação de fibras Aδ e C, inibição pré-sináptica via gate control, liberação de opioides endógenos, modulação da via descendente inibitória. Os alvos biológicos são distintos, e os perfis de resposta refletem essa diferença.

Na prática clínica, isso significa que as duas técnicas podem ser sequenciais ou complementares, mas não são intercambiáveis. Em tendinopatia calcárea do ombro ou fascite plantar crônica refratária, a f-ESWT têm vantagem clara pela capacidade de modificar o substrato tecidual. Em dor miofascial, lombalgia crônica primária ou cefaleia, a acupuntura médica têm evidência superior. A combinação inteligente — por exemplo, f-ESWT para a lesão estrutural (entese, tendinopatia calcárea) e acupuntura para o componente miofascial regional associado — é frequentemente mais efetiva do que qualquer técnica isolada.

PERFIS DE RESPOSTA: F-ESWT VS. ACUPUNTURA MÉDICA

CONDIÇÃOF-ESWTACUPUNTURA MÉDICA
Fascite plantar crônicaAltoModerado
Tendinopatia calcárea do ombroAlto (dissolução mecânica)Baixo
Dor miofascialBaixoModerado-alto
Lombalgia crônicaNão-indicadoModerado (NICE 2021)
Disponibilidade no BrasilLimitada (centros especializados)Amplamente disponível

Um ponto operacional importante: não se deve combinar f-ESWT e acupuntura na mesma área, na mesma sessão, sem intervalo. A energia acústica sobre um tecido que acaba de receber agulhamento (ou o contrário) pode amplificar a resposta inflamatória local de forma pouco previsível. A recomendação prática é separar as modalidades por pelo menos 24 a 48 horas quando aplicadas à mesma região, ou alternar por áreas anatômicas distintas na mesma sessão.

Em contextos selecionados, existe literatura específica sobre a combinação de ondas de choque com agulhamento seco para dor miofascial (veja nosso artigo dedicado sobre o combo f-ESWT + dry needling), com resultados interessantes em pontos-gatilho resistentes — desde que respeitado o intervalo técnico entre as intervenções. A decisão de combinar ou sequenciar as técnicas deve partir de avaliação médica estruturada e plano individualizado.

Quando procurar ajuda médica

A decisão de avaliar f-ESWT parte, primeiro, de uma consulta médica estruturada com caracterização diagnóstica da dor e revisão do tratamento conservador já realizado. A procura pela técnica sem indicação clara tende a resultar em frustração: aplicações fora das indicações estabelecidas não reproduzem a evidência robusta observada em tendinopatia calcárea ou fascite plantar.

PERGUNTAS FREQUENTES · 05

Perguntas Frequentes sobre f-ESWT

Sim, o desconforto durante a aplicação é comum e esperado — descrito pela maioria dos pacientes como uma sensação de pancadas rítmicas sobre a região tratada, variando de incômodo moderado a dor significativa conforme a energia empregada e a sensibilidade individual. A intensidade é ajustada progressivamente durante a sessão, sempre dentro do limite de tolerância do paciente. Em casos selecionados (calcificações extensas, áreas muito sensíveis, pacientes com menor tolerância), pode-se considerar anestesia local no trajeto, embora isso não seja rotina. Dor pós-aplicação leve a moderada por 24-72 horas ocorre em 20-30% dos pacientes e é autolimitada.

O protocolo padrão envolve 3 a 5 sessões, com intervalos semanais ou quinzenais, totalizando 3 a 10 semanas de tratamento ativo. A resposta biológica — angiogênese, remodelação tecidual, dissolução de calcificação — não é imediata: o julgamento formal da resposta ocorre entre 8 e 12 semanas após a última sessão, janela em que os efeitos consolidam-se. Alguns pacientes relatam alívio mais precoce (especialmente em tendinopatia calcárea), mas é comum que melhora significativa apareça apenas no seguimento de 2-3 meses. Julgar precocemente — na 1ª ou 2ª sessão — costuma levar a conclusões equivocadas sobre a eficácia.

A orientação de carga é individualizada e depende da condição tratada. Em tendinopatia de Aquiles ou patelar crônicas, costuma-se manter atividade em intensidade reduzida, preservando o estímulo mecânico ao tecido (que é parte da resposta regenerativa) e evitando sobrecarga que possa agravar o quadro. Em fascite plantar, corrida de alto impacto é geralmente reduzida durante a série. Em tendinopatia calcárea do ombro, movimentos acima da cabeça em treinos pesados são evitados até a reavaliação. A regra prática: modificação, não interrupção total — com plano discutido caso a caso. O programa de reabilitação associado (exercício excêntrico, alongamento, reeducação de carga) costuma ser mantido em paralelo.

No SUS, a disponibilidade é limitada — a técnica está presente em alguns centros universitários e serviços de referência em medicina musculoesquelética, mas não é amplamente disponível na atenção básica ou média. Nos convênios, a cobertura depende do rol da ANS vigente e da política de cada operadora: algumas cobrem em indicações específicas mediante autorização prévia com documentação clínica e de imagem, outras limitam ou excluem a cobertura. Na rede particular, a oferta é maior em clínicas de medicina musculoesquelética, ortopedia, fisiatria e medicina esportiva, com valores por sessão variáveis conforme região e equipamento. Recomenda-se confirmar cobertura antes de iniciar a série.

A escolha depende da profundidade e do tipo de alvo. A f-ESWT (focal) têm foco pontual em plano profundo (até 12 cm), é a preferida para calcificações tendíneas profundas, enteses (inserção tendínea) e pseudartroses — condições em que o alvo é uma estrutura anatômica específica em plano profundo. A r-ESWT (radial) dissipa-se superficialmente a partir do ponto de aplicação, com energia máxima na superfície — é usada em dor miofascial regional, pontos-gatilho superficiais e algumas tendinopatias de localização mais superficial. Em fascite plantar, ambas têm evidência; em tendinopatia calcárea do ombro e pseudartrose, a f-ESWT é preferível. A decisão é clínica e depende de diagnóstico por imagem e localização do alvo — discutida com o médico que realizará o procedimento.