Effectiveness of auricular acupuncture in the treatment of cancer pain: randomized clinical trial
Ruela et al. · Revista da Escola de Enfermagem da USP · 2018
Nível de Evidência
FORTEOBJETIVO
Avaliar a efetividade da auriculoterapia no tratamento da dor oncológica em pacientes em quimioterapia e alterações no consumo de analgésicos
QUEM
31 pacientes com câncer em quimioterapia e dor ≥4 na escala numérica
DURAÇÃO
8 sessões semanais de auriculoterapia com agulhas semipermanentes
PONTOS
Grupo experimental: Shenmen, Rim, Simpático, Relaxamento Muscular e pontos de equilíbrio energético. Grupo placebo: Olho e Traqueia
🔬 Desenho do Estudo
Experimental
n=16
Auriculoterapia com pontos específicos para dor e equilíbrio energético
Placebo
n=15
Auriculoterapia com pontos placebo fixos (Olho e Traqueia)
📊 Resultados em Números
Redução significativa da intensidade da dor
Diminuição do consumo de analgésicos
Grupo experimental - dor inicial
Grupo experimental - dor final
Grupo placebo manteve dor
📊 Comparação de Resultados
Intensidade da dor final (escala 0-10)
Redução da dor em relação ao baseline
Este estudo demonstrou que a auriculoterapia é eficaz para reduzir a dor em pacientes com câncer. Os pacientes que receberam o tratamento verdadeiro tiveram redução significativa da dor e conseguiram diminuir o uso de analgésicos. É uma técnica segura e pode ser usada como tratamento complementar à medicação convencional.
Resumo do Artigo
Resumo narrativo em linguagem acessível
Este ensaio clínico randomizado investigou a efetividade da auriculoterapia no tratamento da dor oncológica em 31 pacientes brasileiros em quimioterapia. O estudo foi realizado na Universidade Federal de Alfenas entre 2015 e 2016, com pacientes que apresentavam dor igual ou superior a 4 na escala numérica. Os participantes foram divididos aleatoriamente em dois grupos: experimental (n=16) e placebo (n=15). O grupo experimental recebeu auriculoterapia com pontos específicos para dor (Shenmen, Rim, Simpático, Relaxamento Muscular) e pontos individualizados de equilíbrio energético baseados na teoria dos Cinco Elementos da Medicina Tradicional Chinesa.
O grupo placebo recebeu aplicação em pontos fixos sem relação com a dor (Olho e Traqueia). Ambos os grupos receberam 8 sessões semanais com agulhas semipermanentes de 0,20 mm x 1,5 mm, alternando entre as orelhas. A avaliação da dor foi realizada através da Escala Numérica de 11 pontos, e o consumo de analgésicos foi monitorado conforme a Escala Analgésica da OMS. Os resultados demonstraram diferença estatisticamente significativa entre os grupos (p<0,001) na redução da intensidade da dor.
O grupo experimental apresentou redução média da dor de 7,36±1,74 para 2,09±1,44 (de dor moderada para leve), enquanto o grupo placebo manteve níveis similares (6,00±1,5 para 6,33±2,14). Além da redução da dor, observou-se diminuição significativa no consumo de analgésicos no grupo experimental, incluindo redução das doses diárias (p=0,010), número de medicamentos consumidos (p=0,019) e alterações na posição dos pacientes nos escalões da Escala da OMS (p=0,026). A abordagem individualizada, considerando o desequilíbrio energético específico de cada paciente através da teoria dos Cinco Elementos, foi fundamental para os resultados positivos. Não foram observados eventos adversos significativos, apenas dor leve no local de aplicação por até 3 dias em alguns participantes.
A população estudada foi majoritariamente feminina (78%) com câncer de mama (52%), e 43,5% dos participantes apresentavam estadiamento III-IV, indicando formas mais avançadas da doença. O estudo apresenta limitações como o tamanho amostral relativamente pequeno devido a perdas durante o seguimento (principalmente óbitos), resistência da população ao tratamento com agulhas, e dificuldades na padronização do protocolo devido às diferentes vertentes da auriculoterapia. Os achados sugerem que a auriculoterapia pode ser uma terapia complementar valiosa no manejo da dor oncológica, oferecendo uma alternativa segura e eficaz que pode reduzir a dependência de analgésicos e seus efeitos adversos, especialmente importante no contexto do cuidado paliativo.
Pontos Fortes
- 1Delineamento randomizado controlado com grupo placebo
- 2Protocolo individualizado baseado na teoria da MTC
- 3Avaliação objetiva do consumo de medicamentos
- 4Técnica segura sem eventos adversos graves
- 5Aplicação por profissional certificado garantindo homogeneidade
Limitações
- 1Tamanho amostral pequeno devido a perdas por óbitos
- 2Ausência de seguimento a longo prazo
- 3Resistência da população ao tratamento com agulhas
- 4Dificuldade na padronização devido às diferentes escolas de auriculoterapia
- 5Avaliador não completamente cego devido à natureza da intervenção
📅 Contexto Histórico
Comentário do Especialista
Prof. Dr. Hong Jin Pai
Doutor em Ciências pela USP
▸ Relevância Clínica
A dor oncológica permanece subestimada e subtratada em boa parte dos serviços oncológicos brasileiros, mesmo com a escada analgésica da OMS bem estabelecida. Este trabalho abre uma janela importante ao demonstrar que a auriculoterapia, aplicada semanalmente durante oito semanas, produziu redução expressiva da dor em pacientes em quimioterapia — muitos deles com estadiamento avançado (III-IV). O ponto clinicamente mais relevante não é apenas o alívio álgico em si, mas a redução concomitante do consumo de analgésicos, com alterações mensuráveis nos escalões da escada da OMS. Para o médico que atua em oncologia ou em cuidados paliativos, isso significa a possibilidade concreta de reduzir a carga de opioides e seus efeitos adversos — constipação, sedação, tolerância — sem abrir mão do controle da dor. A população predominantemente feminina com câncer de mama representa exatamente o perfil que encontramos nos ambulatórios de suporte oncológico, tornando os achados diretamente aplicáveis ao cotidiano.
▸ Achados Notáveis
A magnitude da resposta no grupo experimental merece atenção cuidadosa: a redução de 7,36 para 2,09 na escala numérica representa não apenas significância estatística robusta (p < 0,001), mas uma transição clínica de dor moderada a severa para dor leve — uma diferença que qualquer paciente e qualquer clínico reconhecerão como relevante. Em paralelo, o grupo placebo, que também utilizou agulhas semipermanentes em pontos sem relação com dor, manteve escores praticamente estáveis (passando de 6,00 para 6,33), o que reforça que o efeito observado não se explica apenas pelo ritual do procedimento. A individualização pelo modelo dos Cinco Elementos — acrescentando pontos de equilíbrio energético além dos clássicos Shenmen, Rim e Simpático — é outro dado relevante: sugere que protocolos personalizados segundo a teoria da MTC podem potencializar resultados que protocolos fixos não alcançariam, um argumento que dialoga diretamente com o debate sobre padronização versus individualização em acupuntura.
▸ Da Minha Experiência
Na minha prática no Centro de Dor, tenho incorporado a auriculoterapia ao protocolo de suporte oncológico há muitos anos, e o padrão de resposta descrito neste artigo é coerente com o que observamos rotineiramente: a maioria dos pacientes começa a relatar melhora perceptível após a terceira ou quarta sessão, e ao término de oito sessões semanais uma parcela significativa consegue reduzir ou reorganizar o esquema analgésico com o oncologista responsável. Costumo associar a auriculoterapia a técnicas de acupuntura sistêmica e, sempre que possível, a um programa leve de movimentação assistida, especialmente nos pacientes com dor musculoesquelética associada à toxicidade dos quimioterápicos. O perfil que responde melhor, em minha experiência, é exatamente o descrito aqui: mulheres com câncer de mama, com dor de intensidade moderada a severa, ainda em tratamento ativo. Prefiro não indicar a técnica isolada quando há dor de origem neuropática intensa sem analgesia basal adequada — nesses casos a auriculoterapia entra como adjuvante após estabilização farmacológica, nunca como substituto.
Artigo Original Completo
Leia o Estudo Científico na Íntegra
Revista da Escola de Enfermagem da USP · 2018
DOI: http://dx.doi.org/10.1590/S1980-220X2017040503402
Acessar Artigo OriginalRevisão Científica

Dr. Marcus Yu Bin Pai
CRM-SP: 158074 | RQE: 65523 · 65524 · 655241
Doutor em Ciências pela USP e Especialista em Dor, Fisiatria e Acupuntura. Revisão e curadoria científica de todo o conteúdo desta biblioteca.
Saiba mais sobre o autor →Aviso Médico: Este conteúdo é exclusivamente educacional e não substitui consulta, diagnóstico ou tratamento profissional. Parte das informações pode ter o auxílio de Inteligência Artificial e está sujeita a imprecisões. Consulte sempre um médico.
Conteúdo revisado pela equipe médica do CEIMEC — Centro de Estudo Integrado de Medicina Chinesa, referência em Acupuntura Médica há mais de 30 anos.
Artigos Relacionados
Baseado nas categorias deste artigo