Effectiveness of Electroacupuncture or Auricular Acupuncture vs Usual Care for Chronic Musculoskeletal Pain Among Cancer Survivors: The PEACE Randomized Clinical Trial
Mao et al. · JAMA Oncology · 2021
Nível de Evidência
FORTEOBJETIVO
Comparar a efetividade da eletroacupuntura e auriculoterapia versus cuidados habituais para dor musculoesquelética crônica em sobreviventes de câncer
QUEM
360 sobreviventes de câncer com dor musculoesquelética crônica há pelo menos 3 meses
DURAÇÃO
12 semanas de tratamento com seguimento até 24 semanas
PONTOS
Eletroacupuntura: 4 pontos locais + 4 sistêmicos; Auriculoterapia: cíngulo, tálamo, ômega 2, ponto zero, shen men
🔬 Desenho do Estudo
Eletroacupuntura
n=145
10 sessões semanais de eletroacupuntura
Auriculoterapia
n=143
10 sessões semanais de auriculoterapia (battlefield acupuncture)
Cuidados habituais
n=72
Tratamento padrão para dor
📊 Resultados em Números
Redução da dor - Eletroacupuntura
Redução da dor - Auriculoterapia
Taxa de abandono - Eletroacupuntura
Taxa de abandono - Auriculoterapia
Destaques Percentuais
📊 Comparação de Resultados
Redução na escala BPI de dor (0-10)
Este estudo mostrou que tanto a eletroacupuntura quanto a auriculoterapia são mais eficazes que o tratamento convencional para reduzir dor crônica em sobreviventes de câncer. A eletroacupuntura foi ligeiramente mais eficaz e melhor tolerada, mas ambas as técnicas ofereceram alívio significativo da dor que persistiu por meses após o tratamento.
Resumo do Artigo
Resumo narrativo em linguagem acessível
Eficácia da Eletroacupuntura ou Acupuntura Auricular versus Tratamento Usual para Dor Musculoesquelética Crônica em Sobreviventes de Câncer: Ensaio Clínico Randomizado PEACE
A dor crônica representa um dos maiores desafios enfrentados por sobreviventes de câncer, afetando aproximadamente metade dessa população em crescimento no mundo todo. Diferentemente da população geral, esses pacientes carregam uma carga adicional de sofrimento relacionada aos tratamentos oncológicos prévios, como cirurgias, quimioterapia, radioterapia e terapias hormonais, que podem deixar sequelas dolorosas duradouras. A dor não tratada adequadamente compromete significativamente a qualidade de vida, prejudica a função física e pode até mesmo influenciar negativamente os resultados relacionados ao câncer. Com a atual crise dos opioides nos Estados Unidos, tornou-se ainda mais urgente encontrar alternativas não farmacológicas eficazes para o manejo da dor, especialmente considerando que quase metade dos sobreviventes de câncer não recebe tratamento adequado para seus sintomas dolorosos.
O estudo PEACE (Personalized Electroacupuncture vs Auricular Acupuncture Comparative Effectiveness) foi conduzido para avaliar a efetividade de duas técnicas de acupuntura no tratamento da dor musculoesquelética crônica em sobreviventes de câncer. Este ensaio clínico randomizado envolveu 360 adultos que haviam sido tratados de câncer mas não apresentavam evidência atual da doença, todos sofrendo com dor musculoesquelética há pelo menos três meses. O estudo foi realizado entre março de 2017 e outubro de 2019, distribuído entre o centro urbano do Memorial Sloan Kettering Cancer Center e cinco unidades suburbanas em Nova York e Nova Jersey. Os participantes foram divididos aleatoriamente em três grupos: eletroacupuntura (145 pacientes), acupuntura auricular (143 pacientes) e cuidado usual (72 pacientes).
Os grupos de acupuntura receberam dez sessões semanais de tratamento, enquanto o grupo de cuidado usual continuou com o tratamento padrão prescrito por seus médicos, incluindo medicamentos analgésicos, fisioterapia e injeções quando necessário.
Os resultados demonstraram benefícios significativos para ambas as técnicas de acupuntura. Na eletroacupuntura, acupunturistas licenciados selecionavam pontos específicos próximos à área dolorida e pontos adicionais em outras partes do corpo, aplicando estimulação elétrica em alguns pontos durante 30 minutos. Já a acupuntura auricular seguiu um protocolo militar padronizado conhecido como "battlefield acupuncture", focando exclusivamente em pontos específicos das orelhas, com sessões mais curtas de 10 a 20 minutos. Após 12 semanas de tratamento, ambas as técnicas produziram reduções clinicamente significativas na intensidade da dor comparadas ao cuidado usual.
A eletroacupuntura reduziu os escores de dor em 1,9 pontos numa escala de 0 a 10, enquanto a acupuntura auricular reduziu 1,6 pontos. Para contextualizar esses números, uma redução de 1 ponto nessa escala é considerada clinicamente relevante pelos especialistas. Além da melhora na dor, ambos os tratamentos também resultaram em melhor qualidade de vida, maior capacidade funcional e redução no uso de medicamentos analgésicos.
Para pacientes e profissionais de saúde, esses achados oferecem perspectivas promissoras no manejo da dor crônica em sobreviventes de câncer. A eletroacupuntura mostrou-se particularmente eficaz e bem tolerada, com apenas um paciente interrompendo o tratamento devido a efeitos adversos leves, principalmente equimoses no local das agulhas. A acupuntura auricular, embora também eficaz, apresentou maior taxa de descontinuação, com 15 pacientes interrompendo o tratamento devido principalmente à dor no ouvido. Importante destacar que os benefícios de ambas as técnicas persistiram até 24 semanas após o início do tratamento, sugerindo efeitos duradouros.
Estes resultados são especialmente relevantes considerando que o Medicare americano recentemente passou a cobrir acupuntura para dor lombar crônica, e estudos como este fortalecem o argumento para expandir essa cobertura para outros tipos de dor crônica em sobreviventes de câncer.
O estudo apresenta algumas limitações importantes que devem ser consideradas. Primeiro, não foi possível aplicar um controle placebo verdadeiro, já que tanto pacientes quanto acupunturistas sabiam qual tratamento estava sendo aplicado, o que pode introduzir algum viés nos resultados. Segundo, os tratamentos foram aplicados por acupunturistas experientes e licenciados, então os efeitos podem diferir se a acupuntura auricular for aplicada por profissionais sem formação específica em acupuntura, como está sendo implementado no sistema militar americano. Terceiro, o estudo foi conduzido em um centro acadêmico de câncer com localizações urbanas e suburbanas, sendo necessárias pesquisas adicionais em ambientes comunitários, especialmente em áreas rurais e mal atendidas, para determinar se os resultados podem ser generalizados.
Apesar dessas limitações, este estudo representa uma contribuição significativa para o arsenal de opções não farmacológicas no tratamento da dor crônica, oferecendo aos sobreviventes de câncer alternativas seguras e eficazes que podem melhorar substancialmente sua qualidade de vida sem os riscos associados ao uso prolongado de medicamentos opioides.
Pontos Fortes
- 1Estudo amplo e bem desenhado com 360 participantes diversos
- 2Comparação direta entre duas técnicas de acupuntura
- 3Efeitos duradouros mantidos até 24 semanas
- 4Melhora também na qualidade de vida e redução do uso de medicamentos
- 5População diversa incluindo diferentes tipos de câncer
Limitações
- 1Ausência de grupo controle com acupuntura simulada
- 2Impossibilidade de cegar pacientes e terapeutas
- 3Conduzido apenas em centros acadêmicos urbanos e suburbanos
- 4Auriculoterapia teve maior taxa de eventos adversos e abandono
- 5Não testou combinação das duas técnicas
📅 Contexto Histórico
Comentário do Especialista
Prof. Dr. Hong Jin Pai
Doutor em Ciências pela USP
▸ Relevância Clínica
A dor musculoesquelética crônica em sobreviventes de câncer constitui um problema clínico de dimensão crescente e sistematicamente subestimado nos ambulatórios de oncologia e de medicina da dor. O ensaio PEACE responde a uma pergunta concreta: entre as opções não farmacológicas disponíveis, a acupuntura tem efetividade comparável ou superior ao tratamento convencional nessa população específica? Com 360 participantes distribuídos em três braços e seguimento até 24 semanas, a resposta é afirmativa para eletroacupuntura e auriculoterapia, ambas superando o cuidado usual em redução de dor, capacidade funcional e qualidade de vida, com redução concomitante do uso de analgésicos. Isso posiciona a eletroacupuntura, em particular, como opção de primeira linha no planejamento integrativo de sobreviventes que carregam sequelas álgicas de quimioterapia, radioterapia ou hormonoterapia — população que frequentemente não tolera opioides e que merece abordagem estruturada e baseada em evidências.
▸ Achados Notáveis
Dois achados merecem atenção especial. O primeiro é a magnitude da redução de dor pela eletroacupuntura — 1,9 pontos na escala numérica —, que supera o limiar de relevância clínica mínima estabelecido na literatura de dor crônica e se manteve sustentado até a semana 24, portanto 12 semanas após o encerramento das sessões. Esse efeito carryover sugere modulação neuroplástica duradoura, não apenas supressão sintomática transitória. O segundo achado é o contraste dramático nas taxas de abandono: 0,7% na eletroacupuntura contra 10,5% na auriculoterapia. Essa diferença tem implicação direta na escolha técnica em consultório — a auriculoterapia pelo protocolo battlefield, embora eficaz, gerou dor auricular que comprometeu a adesão. Em populações onco-hematológicas com múltiplas comorbidades e menor tolerância a desconforto, a eletroacupuntura emerge como modalidade mais robusta em termos de aderência e resultado.
▸ Da Minha Experiência
No Centro de Dor do HC-FMUSP, temos atendido sobreviventes de câncer com dor musculoesquelética há muitos anos, e o padrão que observo é consistente com os achados do PEACE: a eletroacupuntura costuma produzir resposta perceptível entre a terceira e a quinta sessão, com ganho funcional mais evidente a partir da sétima ou oitava. Trabalho habitualmente com ciclos de dez sessões semanais, seguidos de manutenção mensal por seis a doze meses dependendo da etiologia — neuropatia por platinas ou taxanos exige manutenção mais prolongada do que artralgia por inibidores de aromatase. Associo sistematicamente exercício aeróbico supervisionado e, quando há componente central pronunciado, duloxetina ou pregabalina em doses adjuvantes. A auriculoterapia reservo como complemento ou para pacientes com restrições técnicas ao uso de eletroacupuntura corporal, não como substituta de primeira linha. Pacientes com fibromialgia concomitante ou síndromes de sensibilização central respondem mais lentamente e merecem expectativas calibradas desde o início.
Artigo Original Completo
Leia o Estudo Científico na Íntegra
JAMA Oncology · 2021
DOI: 10.1001/jamaoncol.2021.0310
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Dr. Marcus Yu Bin Pai
CRM-SP: 158074 | RQE: 65523 · 65524 · 655241
Doutor em Ciências pela USP e Especialista em Dor, Fisiatria e Acupuntura. Revisão e curadoria científica de todo o conteúdo desta biblioteca.
Saiba mais sobre o autor →Aviso Médico: Este conteúdo é exclusivamente educacional e não substitui consulta, diagnóstico ou tratamento profissional. Parte das informações pode ter o auxílio de Inteligência Artificial e está sujeita a imprecisões. Consulte sempre um médico.
Conteúdo revisado pela equipe médica do CEIMEC — Centro de Estudo Integrado de Medicina Chinesa, referência em Acupuntura Médica há mais de 30 anos.
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