A randomized, controlled, crossover study in patients with mild and moderate asthma undergoing treatment with traditional Chinese acupuncture
Pai et al. · Clinics · 2015
Nível de Evidência
MODERADAOBJETIVO
Avaliar os efeitos da acupuntura como tratamento adjuvante para controle da asma leve a moderada
QUEM
74 pacientes com asma persistente leve/moderada
DURAÇÃO
20 sessões totais (10 reais + 10 sham) com período de washout de 3 semanas
PONTOS
Acupontos tradicionais chineses para asma vs pontos sham em meridianos distantes
🔬 Desenho do Estudo
Grupo A
n=31
Acupuntura real primeiro, depois sham
Grupo B
n=43
Acupuntura sham primeiro, depois real
📊 Resultados em Números
Redução de eosinófilos no escarro (Grupo B)
Redução de neutrófilos no escarro (Grupo B)
Aumento de macrófagos no escarro (Grupo B)
Melhora do peak flow (Grupo B)
📊 Comparação de Resultados
Redução de sintomas (tosse, chiado, dispneia)
Melhora na qualidade de vida
Este estudo mostrou que a acupuntura pode ajudar no controle da asma, reduzindo sintomas como tosse, chiado e falta de ar, além de melhorar a qualidade de vida. Interessantemente, mesmo a acupuntura 'falsa' (sham) mostrou alguns benefícios, sugerindo que diferentes formas de estimulação por agulhas podem ter efeitos terapêuticos. Os resultados indicam que a acupuntura pode ser uma terapia complementar útil para pessoas com asma leve a moderada.
Resumo do Artigo
Resumo narrativo em linguagem acessível
Estudo Randomizado Controlado Cruzado em Pacientes com Asma Leve e Moderada Submetidos a Acupuntura Tradicional Chinesa
A asma é uma condição respiratória crônica que afeta aproximadamente 300 milhões de pessoas globalmente, caracterizada por inflamação constante nas vias aéreas que causa estreitamento dos brônquios, aumento da produção de muco e sintomas como tosse, chiado no peito, falta de ar e sensação de aperto no tórax. O tratamento convencional inclui medicamentos broncodilatadores e anti-inflamatórios inalatórios, que embora eficazes, têm levado muitos pacientes a buscar terapias complementares. Entre essas alternativas, a acupuntura tem ganhado destaque como uma opção promissora para o controle dos sintomas asmáticos, sendo uma técnica milenar da medicina tradicional chinesa que utiliza agulhas em pontos específicos do corpo para promover o equilíbrio energético e tratar diversas condições de saúde.
Diante da necessidade de evidências científicas mais robustas sobre a eficácia da acupuntura no tratamento da asma, pesquisadores da Universidade de São Paulo conduziram um estudo controlado e randomizado no Hospital das Clínicas. O objetivo principal foi avaliar se a acupuntura tradicional chinesa, quando usada como tratamento complementar aos medicamentos convencionais, poderia efetivamente melhorar o controle da asma em pacientes com sintomas leves a moderados. Para isso, utilizaram um desenho metodológico conhecido como estudo cruzado, onde todos os participantes receberam tanto acupuntura real quanto acupuntura falsa em momentos diferentes, permitindo que cada pessoa servisse como seu próprio controle. O estudo foi conduzido de forma duplo-cega, ou seja, nem os pacientes nem os profissionais que avaliaram os resultados sabiam qual tipo de acupuntura estava sendo aplicada em cada momento.
A pesquisa acompanhou 74 pacientes adultos não fumantes com asma persistente leve a moderada por um período de mais de quatro anos. Os participantes foram divididos em dois grupos: um grupo recebeu primeiro dez sessões semanais de acupuntura real seguidas por um período de três semanas sem tratamento e depois dez sessões de acupuntura falsa; o outro grupo seguiu a sequência inversa. Durante todo o estudo, os pacientes continuaram usando seus medicamentos habituais para asma quando necessário. Os pesquisadores mediram diversos parâmetros para avaliar a eficácia do tratamento, incluindo função pulmonar através de espirometria, análise de células inflamatórias no escarro induzido, medição do óxido nítrico exalado como marcador de inflamação, registros diários dos sintomas e do uso do medidor de pico de fluxo, além de questionários detalhados sobre qualidade de vida.
Os resultados revelaram descobertas interessantes e complexas sobre os efeitos da acupuntura no controle da asma. Quando os pacientes receberam acupuntura real, observou-se uma melhora significativa no pico de fluxo expiratório, que é um indicador importante da função respiratória. Mais impressionante ainda foi a demonstração de efeitos anti-inflamatórios da acupuntura real: houve diminuição significativa de eosinófilos e neutrófilos no escarro, que são células relacionadas à inflamação asmática, acompanhada por um aumento de macrófagos, células importantes na regulação da resposta alérgica. Quanto aos sintomas diários, tanto a acupuntura real quanto a falsa promoveram reduções significativas na tosse, chiado no peito e falta de ar, além de diminuir a necessidade de medicamentos de alívio.
Nos questionários de qualidade de vida, ambos os tipos de acupuntura mostraram melhorias em diversos aspectos, incluindo capacidade funcional, aspectos físicos, estado geral de saúde e vitalidade.
Para pacientes com asma que consideram a acupuntura como tratamento complementar, estes resultados sugerem que a técnica pode oferecer benefícios reais, especialmente no controle da inflamação das vias aéreas e na melhora da função respiratória. A demonstração de efeitos anti-inflamatórios é particularmente relevante, pois a inflamação crônica é um componente central da asma. Para os profissionais de saúde, o estudo fornece evidências de que a acupuntura pode ser uma ferramenta útil como parte de um plano de tratamento integrado, potencialmente ajudando a reduzir a dependência de medicamentos e melhorando a qualidade de vida dos pacientes. No entanto, é importante que tanto pacientes quanto profissionais compreendam que a acupuntura deve ser vista como um tratamento complementar, não substituto, à terapia médica convencional.
O estudo apresentou limitações importantes que devem ser consideradas na interpretação dos resultados. A perda de participantes foi considerável ao longo dos quatro anos de pesquisa, com 111 voluntários abandonando o estudo por diversas razões, incluindo sobrecarga de trabalho, mudança de endereço e melhora dos sintomas durante o trial. Além disso, o longo período de duração impediu um controle adequado da sazonalidade, que pode influenciar os sintomas asmáticos, e o período de três semanas entre os tratamentos pode não ter sido suficiente para eliminar completamente os efeitos da acupuntura. Surpreendentemente, tanto a acupuntura real quanto a falsa produziram melhorias similares em muitos aspectos, sugerindo que é difícil estabelecer um verdadeiro placebo para acupuntura, pois mesmo pontos considerados "falsos" podem ter algum efeito terapêutico.
Esta descoberta questiona a validade do desenho de estudo cruzado para pesquisas com acupuntura e indica a necessidade de metodologias diferentes em futuras investigações sobre esta terapia complementar promissora para o tratamento da asma.
Pontos Fortes
- 1Design crossover bem estruturado com controle duplo-cego
- 2Avaliação abrangente incluindo espirometria, células do escarro e óxido nítrico
- 3Medidas objetivas e subjetivas da função pulmonar
- 4Seguimento de longo prazo permitindo avaliação de efeitos sustentados
Limitações
- 1Alta taxa de abandono (111 de 185 participantes deixaram o estudo)
- 2Período de washout pode ter sido insuficiente (3 semanas)
- 3Controle de sazonalidade inadequado devido à longa duração do estudo
- 4Dificuldade em estabelecer pontos sham como verdadeiro placebo
📅 Contexto Histórico
Comentário do Especialista
Prof. Dr. Hong Jin Pai
Doutor em Ciências pela USP
▸ Relevância Clínica
A asma afeta cerca de 300 milhões de pessoas no mundo, e uma parcela considerável desses pacientes permanece com controle insatisfatório mesmo em uso regular de corticosteroides inalatórios e broncodilatadores. É nesse cenário — pacientes com asma leve a moderada, sintomáticos, buscando reduzir a carga medicamentosa ou melhorar a qualidade de vida — que este trabalho do HC-FMUSP encontra sua maior aplicabilidade clínica. O estudo demonstra que a acupuntura tradicional chinesa, usada como adjuvante ao tratamento farmacológico convencional, produz efeitos anti-inflamatórios mensuráveis nas vias aéreas, com redução de eosinófilos e neutrófilos no escarro e aumento de macrófagos, além de melhora objetiva no pico de fluxo expiratório. Para o médico que integra acupuntura ao manejo respiratório, esses achados fundamentam a indicação com base em desfechos biológicos concretos, não apenas em relatos subjetivos de bem-estar, o que fortalece a conversa com pneumologistas e alergistas no contexto multidisciplinar.
▸ Achados Notáveis
O resultado mais robusto deste estudo é a modificação do perfil citológico do escarro induzido após acupuntura real: redução significativa de eosinófilos (p=0,035) e neutrófilos (p=0,047) com aumento concomitante de macrófagos (p=0,001). Esse padrão sugere uma modulação do microambiente inflamatório brônquico que vai além do simples alívio sintomático — é uma reorganização da resposta imunológica local. A melhora do peak flow (p=0,01) corrobora a relevância funcional dessas alterações celulares. Outro achado que merece atenção é a melhora sintomática observada também no grupo sham, envolvendo tosse, sibilância, dispneia e uso de broncodilatador de resgate. Esse fenômeno não invalida a acupuntura real; ao contrário, coloca em evidência que diferentes formas de estimulação por agulha — mesmo em pontos não clássicos — podem recrutar vias neuromodulatórias com repercussão clínica, o que é consistente com o que sabemos sobre a fisiologia da estimulação cutânea e a neuroimunomodulação.
▸ Da Minha Experiência
Na minha prática no Centro de Dor do HC-FMUSP, tenho acompanhado pacientes asmáticos encaminhados por pneumologistas que buscam acupuntura após anos de tratamento convencional com controle parcial. O que este trabalho confirma é o que costumo observar clinicamente: a resposta inflamatória começa a se modificar antes mesmo de o paciente perceber melhora sintomática expressiva. Geralmente oriento que os primeiros sinais de melhora — menos episódios noturnos, menor necessidade de salbutamol — costumam aparecer entre a quarta e a sexta sessão. Para consolidação, trabalho habitualmente com ciclos de dez sessões semanais, seguidos de manutenção quinzenal ou mensal conforme a sazonalidade. Associo sistematicamente orientação sobre higiene do sono, controle de alérgenos domiciliares e, quando pertinente, técnicas de respiração diafragmática. O perfil que responde melhor, em minha experiência, é o do paciente com asma alérgica, eosinofílica, sem tabagismo ativo e com boa adesão ao tratamento farmacológico de base — exatamente a população selecionada neste estudo.
Artigo Original Completo
Leia o Estudo Científico na Íntegra
Clinics · 2015
DOI: 10.6061/clinics/2015(10)01
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Revisão Científica

Dr. Marcus Yu Bin Pai
CRM-SP: 158074 | RQE: 65523 · 65524 · 655241
Doutor em Ciências pela USP e Especialista em Dor, Fisiatria e Acupuntura. Revisão e curadoria científica de todo o conteúdo desta biblioteca.
Saiba mais sobre o autor →Aviso Médico: Este conteúdo é exclusivamente educacional e não substitui consulta, diagnóstico ou tratamento profissional. Parte das informações pode ter o auxílio de Inteligência Artificial e está sujeita a imprecisões. Consulte sempre um médico.
Conteúdo revisado pela equipe médica do CEIMEC — Centro de Estudo Integrado de Medicina Chinesa, referência em Acupuntura Médica há mais de 30 anos.
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