Effect of Acupuncture vs Sham Acupuncture on Live Births Among Women Undergoing In Vitro Fertilization: A Randomized Clinical Trial
Smith et al. · JAMA · 2018
Nível de Evidência
FORTEOBJETIVO
Avaliar se acupuntura aumenta as taxas de nascidos vivos em mulheres submetidas à fertilização in vitro
QUEM
824 mulheres de 18-42 anos em 16 clínicas na Austrália e Nova Zelândia
DURAÇÃO
3 sessões durante estimulação ovariana e transferência embrionária
PONTOS
ST-29, Ren-4, Ren-6, SP-6, SP-10 e pontos individualizados baseados em MTC
🔬 Desenho do Estudo
Acupuntura
n=424
Acupuntura tradicional com agulhas reais
Sham Controle
n=424
Acupuntura sham com agulhas não-penetrantes
📊 Resultados em Números
Taxa de nascidos vivos - acupuntura
Taxa de nascidos vivos - sham
Diferença entre grupos
Gravidez clínica - acupuntura
Gravidez clínica - sham
Destaques Percentuais
📊 Comparação de Resultados
Taxa de Nascidos Vivos (%)
Este estudo de alta qualidade mostrou que a acupuntura não aumenta as chances de ter um bebê durante o tratamento de fertilização in vitro. As mulheres que receberam acupuntura real tiveram praticamente as mesmas taxas de sucesso que aquelas que receberam acupuntura simulada (18,3% vs 17,8%).
Resumo do Artigo
Resumo narrativo em linguagem acessível
Efeito da Acupuntura versus Acupuntura Simulada em Nascidos Vivos de Mulheres em Fertilização In Vitro: Ensaio Clínico Randomizado
Este estudo randomizado controlado duplo-cego foi conduzido para determinar se a acupuntura pode melhorar as taxas de nascidos vivos em mulheres submetidas à fertilização in vitro (FIV). Publicado na prestigiosa revista JAMA em 2018, representa um dos maiores e mais rigorosos estudos já realizados sobre este tópico, envolvendo 848 mulheres em 16 centros de FIV na Austrália e Nova Zelândia.
O contexto do estudo surge da ampla utilização da acupuntura por mulheres em tratamento de FIV, apesar da evidência conflitante sobre sua eficácia. Estudos anteriores apresentavam limitações metodológicas significativas, incluindo amostras pequenas, risco de viés de seleção e heterogeneidade entre estudos. Apenas cinco ensaios clínicos randomizados anteriores usando acupuntura sham relataram o desfecho crucial de nascidos vivos, destacando a necessidade de um estudo bem desenhado.
A metodologia foi rigorosamente planejada. As participantes eram mulheres de 18 a 42 anos submetendo-se a um ciclo fresco de FIV ou injeção intracitoplasmática de espermatozoide. O estudo utilizou randomização computadorizada com método de minimização, estratificada por número de ciclos prévios de transferência embrionária, idade da mulher e local do estudo. O cegamento foi mantido para participantes, especialistas em fertilidade, enfermeiros e analistas.
O protocolo de acupuntura foi desenvolvido usando método Delphi, com características do tratamento retidas ao atingir 80% de consenso entre especialistas. O tratamento foi baseado na medicina tradicional chinesa, com pontos localizados nas áreas de inervação do útero e ovários, e em áreas para estimular o fluxo sanguíneo uterino e inibir a resposta ao estresse. O primeiro tratamento foi administrado entre os dias 6 a 8 da estimulação folicular, e dois tratamentos foram dados no dia da transferência embrionária. Os pontos principais incluíam Guilai ST-29, Guanyuan Ren-4, Qihai Ren-6, Sanyinjiao SP-6 e Xuehai SP-10, com até 5 pontos adicionais baseados no diagnóstico da medicina tradicional chinesa.
O grupo controle recebeu acupuntura não-invasiva usando agulhas sham Park, com ponta romba e haste retrátil. Estas agulhas foram colocadas levemente na superfície da pele sem manipulação, em pontos sham localizados distantes dos pontos de acupuntura verdadeiros.
Os resultados foram inequívocos. Entre as 809 mulheres incluídas na análise primária, nascidos vivos ocorreram em 74 de 405 mulheres (18,3%) recebendo acupuntura comparado com 72 de 404 mulheres (17,8%) recebendo controle sham. A diferença de risco foi de apenas 0,5% (IC 95%: -4,9% a 5,8%), com risco relativo de 1,02 (IC 95%: 0,76 a 1,38). Esta diferença não foi estatisticamente significativa (p=0,83).
Resultados secundários mostraram que gravidez clínica foi alcançada em 105 de 408 mulheres (25,7%) no grupo acupuntura versus 88 de 406 mulheres (21,7%) no grupo sham, uma diferença também não estatisticamente significativa. Interessantemente, o número de abortos espontâneos foi numericamente maior no grupo acupuntura (22,8% vs 11,6%), mas sem significância estatística. Eventos adversos foram leves e específicos da acupuntura, incluindo desconforto e hematomas, sendo estatisticamente mais frequentes no grupo acupuntura.
As implicações clínicas são claras e importantes. Os achados não suportam o uso de acupuntura para melhorar as taxas de nascidos vivos em mulheres submetidas à FIV. Estes resultados apoiam diretrizes da American Society for Reproductive Medicine e meta-análises de alta qualidade que concluíram que acupuntura comparada com controle sham não melhora as taxas de nascidos vivos em FIV.
O estudo apresenta várias limitações. O tamanho amostral planejado não foi atingido devido ao recrutamento lento, com mulheres buscando acupuntura na comunidade e declinando randomização. O estágio da transferência embrionária não foi balanceado entre grupos, com número significativamente maior de transferências de blastocisto no grupo controle. A duração do tratamento foi relativamente curta comparada à prática clínica usual.
Algumas mulheres foram inevitavelmente excluídas da análise por intenção de tratar devido à retirada do consentimento.
Em conclusão, este estudo rigoroso demonstra que a acupuntura administrada durante estimulação ovariana e transferência embrionária não melhora significativamente as taxas de nascidos vivos em mulheres submetidas à FIV. Os achados fornecem evidência de alta qualidade para orientar a prática clínica e aconselhamento de pacientes sobre terapias complementares em reprodução assistida.
Pontos Fortes
- 1Maior estudo randomizado sobre acupuntura em FIV já realizado
- 2Design duplo-cego rigoroso com controle sham apropriado
- 3Estudo multicêntrico em 16 centros aumentando generalização
- 4Protocolo de acupuntura baseado em consenso de especialistas
- 5Alta aderência ao tratamento (91% receberam 2+ sessões)
Limitações
- 1Tamanho amostral menor que planejado devido recrutamento lento
- 2Desequilíbrio no estágio de transferência embrionária entre grupos
- 3Duração curta do tratamento comparada à prática clínica
- 4Exclusão de algumas participantes da análise por retirada de consentimento
- 5Cegamento parcialmente comprometido no grupo acupuntura
📅 Contexto Histórico
Comentário do Especialista
Prof. Dr. Hong Jin Pai
Doutor em Ciências pela USP
▸ Relevância Clínica
Este ensaio merece atenção por reunir 848 mulheres em 16 centros australianos e neozelandeses, conferindo-lhe o maior poder amostral já empregado nessa questão específica. Para o médico que atende casais em protocolo de reprodução assistida, o dado nuclear é direto: três sessões de acupuntura administradas durante a estimulação folicular e no dia da transferência embrionária não alteraram a taxa de nascidos vivos em comparação ao controle sham — 18,3% versus 17,8%, com p=0,83. Esse resultado permite ao especialista em medicina reprodutiva orientar suas pacientes com objetividade, sem necessidade de proibir a prática, mas também sem atribuir a ela expectativas de incremento nas taxas de sucesso da FIV. A convergência deste achado com as diretrizes da American Society for Reproductive Medicine consolida uma posição clínica consistente e baseada em evidências robustas para o aconselhamento pré-procedimento.
▸ Achados Notáveis
O achado mais digno de reflexão não está no desfecho primário negativo, mas na assimetria observada nos desfechos secundários: gravidez clínica foi numericamente mais frequente no grupo acupuntura — 25,7% versus 21,7% — sem, porém, resultar em proporção equivalente de nascidos vivos. Esse padrão sugere que, se algum efeito biológico da acupuntura sobre a implantação existe, ele não se sustenta ao longo da gestação, ou é neutralizado por taxas diferenciadas de perda gestacional. O número de abortos espontâneos foi numericamente maior no grupo acupuntura — 22,8% versus 11,6% —, dado que, embora não tenha atingido significância estatística, merece monitoramento em ensaios futuros com maior poder para esse desfecho específico. A alta aderência ao protocolo, com 91% das participantes recebendo duas ou mais sessões, garante que o resultado negativo reflita o tratamento e não falha de execução.
▸ Da Minha Experiência
Na minha prática no Grupo de Acupuntura do Centro de Dor do HC-FMUSP, recebo com regularidade pacientes que cursam protocolos de FIV e demandam acupuntura como suporte. Ao longo das últimas décadas, tenho observado que a motivação dessas mulheres é legítima — redução do estresse, melhora da qualidade do sono e sensação de protagonismo no processo —, e esses benefícios ansiogênicos e autonômicos são reais e clinicamente mensuráveis. O que este estudo esclarece definitivamente é que tais benefícios não se traduzem em incremento da taxa de nascidos vivos quando o tratamento se concentra em apenas três sessões ao redor da transferência. Na minha experiência, quando acompanho essas pacientes por períodos mais prolongados — iniciando semanas antes da estimulação, com sessões semanais —, a percepção subjetiva de bem-estar é consistente, ainda que o impacto sobre desfechos reprodutivos duros permaneça indeterminado. O perfil de paciente que encaminho a esse suporte com maior convicção é aquela com ansiedade pronunciada e disautonomia associada, não aquela que busca a acupuntura como estratégia primária para elevar chances de implantação.
Artigo Original Completo
Leia o Estudo Científico na Íntegra
JAMA · 2018
DOI: 10.1001/jama.2018.5336
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Revisão Científica

Dr. Marcus Yu Bin Pai
CRM-SP: 158074 | RQE: 65523 · 65524 · 655241
Doutor em Ciências pela USP e Especialista em Dor, Fisiatria e Acupuntura. Revisão e curadoria científica de todo o conteúdo desta biblioteca.
Saiba mais sobre o autor →Aviso Médico: Este conteúdo é exclusivamente educacional e não substitui consulta, diagnóstico ou tratamento profissional. Parte das informações pode ter o auxílio de Inteligência Artificial e está sujeita a imprecisões. Consulte sempre um médico.
Conteúdo revisado pela equipe médica do CEIMEC — Centro de Estudo Integrado de Medicina Chinesa, referência em Acupuntura Médica há mais de 30 anos.
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