Is cupping therapy effective in patients with neck pain? A systematic review and meta-analysis
Kim et al. · BMJ Open · 2018
OBJETIVO
Avaliar a eficácia da ventosaterapia (cupping) no tratamento da dor cervical através de revisão sistemática
QUEM
Adultos com dor no pescoço (aguda ou crônica)
DURAÇÃO
Análise de estudos até janeiro de 2018
PONTOS
Região cervical, ombros superiores e pontos Ashi
🔬 Desenho do Estudo
Ventosaterapia
n=534
ventosa seca ou úmida na região cervical
Controle
n=509
sem tratamento, lista de espera ou cuidados padrão
📊 Resultados em Números
Redução da dor vs. sem tratamento
Redução da dor vs. controle ativo
Melhora da função cervical
Eventos adversos
📊 Comparação de Resultados
Redução da dor (escala 0-10)
Esta revisão mostra que a ventosaterapia pode ser um tratamento eficaz para reduzir dor no pescoço e melhorar a função cervical. Os benefícios foram observados tanto quando comparada a nenhum tratamento quanto a outros tratamentos ativos, com efeitos colaterais geralmente leves e temporários.
Resumo do Artigo
Resumo narrativo em linguagem acessível
Esta revisão sistemática e meta-análise examinou a eficácia da ventosaterapia no tratamento da dor cervical, analisando 18 estudos controlados randomizados com um total de 1.043 participantes. A ventosaterapia, também conhecida como cupping, é uma técnica terapêutica milenar que utiliza copos aplicados sobre a pele para criar pressão negativa através de sucção, podendo ser realizada de forma seca (sem sangramento) ou úmida (com escarificação). Os pesquisadores conduziram uma busca abrangente em nove bases de dados, incluindo fontes chinesas, coreanas e japonesas, sem restrições de idioma, para garantir uma análise completa da literatura disponível até janeiro de 2018. Os estudos incluíram adultos com dor cervical, tanto aguda quanto crônica, excluindo casos de trauma como whiplash ou lesões esportivas.
Os tratamentos de ventosaterapia foram aplicados principalmente na região cervical superior e ombros, frequentemente em pontos Ashi (pontos dolorosos) e outros pontos próximos. A frequência dos tratamentos variou consideravelmente entre os estudos, desde sessões únicas até mais de 10 sessões, dependendo da gravidade e cronicidade da condição. Os resultados demonstraram que a ventosaterapia foi significativamente eficaz na redução da dor quando comparada tanto a grupos sem tratamento quanto a controles ativos. Especificamente, quando comparada a nenhuma intervenção, a ventosaterapia mostrou uma redução média da dor de 2,42 pontos na escala visual analógica, superando o limite de diferença clinicamente importante mínima de 0,8 pontos.
Além da redução da dor, os pacientes também experimentaram melhoras significativas na função cervical, com redução média de 4,34 pontos no Índice de Incapacidade do Pescoço, novamente superando o limite clinicamente relevante de 3 pontos. Quando comparada a tratamentos ativos como fisioterapia, medicamentos anti-inflamatórios ou acupuntura, a ventosaterapia ainda demonstrou superioridade com redução média da dor de 0,89 pontos. A análise de subgrupos revelou que tanto a ventosaterapia seca quanto a úmida foram eficazes, embora com variações nos tamanhos de efeito. Os benefícios também se estenderam à qualidade de vida, com melhorias significativas observadas no componente mental do questionário SF-36 quando comparada a nenhum tratamento, e no componente físico quando comparada a controles ativos.
Em relação à segurança, apenas 8 dos 18 estudos relataram eventos adversos, que foram predominantemente leves e temporários. Os efeitos colaterais mais comuns incluíram dor no local da aplicação, hematomas menores, dor de cabeça temporária e tensão muscular, todos resolvendo-se espontaneamente em poucos dias. Não foram identificados eventos adversos graves relacionados diretamente à ventosaterapia nos estudos analisados. No entanto, é importante notar que muitos estudos não reportaram adequadamente questões de segurança, representando uma limitação significativa.
As implicações clínicas destes achados são consideráveis, especialmente considerando que a dor cervical é a segunda principal causa de anos vividos com incapacidade mundialmente. A ventosaterapia oferece uma opção terapêutica não-farmacológica que pode ser particularmente valiosa para pacientes que buscam alternativas aos medicamentos convencionais ou que experimentam efeitos colaterais com tratamentos padrão. A terapia também pode ser utilizada como tratamento complementar, potencializando os efeitos de outras intervenções. Entretanto, várias limitações importantes devem ser consideradas.
A qualidade geral da evidência foi classificada como baixa a muito baixa devido a preocupações metodológicas, incluindo risco de viés, imprecisão e inconsistência entre os estudos. Muitos estudos não utilizaram métodos adequados de randomização ou ocultação de alocação, e o cegamento foi problemático devido à natureza da intervenção. Além disso, a heterogeneidade significativa entre os estudos, particularmente nos protocolos de ventosaterapia úmida, sugere que diferentes técnicas podem ter eficácias variáveis. A dependência exclusiva em desfechos relatados pelo paciente também pode ter introduzido viés, já que o cegamento adequado não foi possível.
Outra limitação foi que quase todos os estudos incluídos focaram em dor cervical crônica, deixando incerto se os benefícios se aplicam igualmente à dor aguda.
Pontos Fortes
- 1Busca abrangente em múltiplas bases de dados sem restrição de idioma
- 2Análise de 18 estudos controlados randomizados
- 3Avaliação tanto de ventosaterapia seca quanto úmida
- 4Análise de segurança e eventos adversos
Limitações
- 1Qualidade baixa a muito baixa da evidência incluída
- 2Impossibilidade de cegamento adequado dos participantes
- 3Alta heterogeneidade entre os estudos
- 4Muitos estudos não reportaram adequadamente eventos adversos
📅 Contexto Histórico
Comentário do Especialista
Dr. Marcus Yu Bin Pai
CRM-SP 158074 · RQE 65523 / 65524 / 655241
▸ Relevância Clínica
A dor cervical crônica ocupa posição de destaque no cotidiano de qualquer serviço de reabilitação, e a ventosaterapia frequentemente chega ao consultório como demanda do paciente antes mesmo de qualquer prescrição médica. Esta meta-análise de 18 ensaios clínicos randomizados com 1.043 participantes fornece, pela primeira vez em escala sistemática, estimativas de efeito que superam as diferenças clinicamente mínimas importantes — redução de 2,42 pontos na dor versus sem tratamento e queda de 4,34 pontos no NDI. Esses limiares são referenciais objetivos que permitem ao fisiatra posicionar a ventosaterapia com alguma base quantitativa dentro do arsenal não-farmacológico. O perfil de pacientes que mais se beneficia parece ser o portador de cervicalgia crônica que não tolera ou recusa AINEs, que já realizou fisioterapia convencional com resposta parcial, ou que apresenta elevada carga de pontos-gatilho miofasciais na musculatura cervical superior e trapézio, condição em que a pressão negativa da ventosa opera de forma mecanicamente complementar ao agulhamento.
▸ Achados Notáveis
Dois achados merecem atenção especial. Primeiro, a superioridade da ventosaterapia frente a controles ativos — fisioterapia, AINEs, acupuntura — em 0,89 pontos, ainda que modesta, rompe com a narrativa de que a técnica funcionaria apenas por efeito de contexto terapêutico; sugere componente de efeito específico, provavelmente mediado pela modulação mecânica do tecido conjuntivo e aferentes nociceptivos cutâneos. Segundo, a melhora de 4,34 pontos no NDI supera com folga o limiar de relevância clínica de 3 pontos, o que é funcionalmente expressivo — corresponde a ganho mensurável em atividades como rotação cervical para condução veicular e tolerância ao trabalho em mesa. A extensão dos benefícios ao componente mental do SF-36 também chama atenção: intervenções direcionadas ao tecido miofascial cervical parecem ter repercussão sobre neuromodulação central, hipótese coerente com o que se conhece sobre sensibilização central em dor cervical crônica.
▸ Da Minha Experiência
Na minha prática no ambulatório de dor musculoesquelética, introduzi a ventosaterapia deslizante sobre o trapézio e elevador da escápula como complemento ao agulhamento seco de pontos-gatilho, e a combinação costuma acelerar a resposta — pacientes que com agulhamento isolado levavam quatro ou cinco sessões para referir alívio consistente, com a ventosa associada tendem a relatar melhora já na segunda ou terceira sessão. Costumo reservar a ventosa seca estática para as fases iniciais em pacientes com alta sensibilidade mecânica, migrando para a deslizante quando a hiperalgesia de pressão já cedeu parcialmente. O perfil que responde melhor na minha experiência é o de adulto de meia-idade com cervicalgia crônica de componente miofascial predominante, baixa tolerância a procedimentos invasivos e histórico de boa resposta a massoterapia. Não indico ventosaterapia sobre pele com alterações tróficas, anticoagulação plena ou suspeita de radiculopatia aguda compressiva sem adequada investigação de imagem prévia. Para manutenção, tenho usado esquema de oito a doze sessões iniciais com reavaliação funcional pelo NDI — exatamente o desfecho que este trabalho usa — o que facilita comunicar ao paciente progressão objetiva.
Artigo Original Completo
Leia o Estudo Científico na Íntegra
BMJ Open · 2018
DOI: 10.1136/bmjopen-2017-021070
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Dr. Marcus Yu Bin Pai
CRM-SP: 158074 | RQE: 65523 · 65524 · 655241
Doutor em Ciências pela USP e Especialista em Dor, Fisiatria e Acupuntura. Revisão e curadoria científica de todo o conteúdo desta biblioteca.
Saiba mais sobre o autor →Aviso Médico: Este conteúdo é exclusivamente educacional e não substitui consulta, diagnóstico ou tratamento profissional. Parte das informações pode ter o auxílio de Inteligência Artificial e está sujeita a imprecisões. Consulte sempre um médico.
Conteúdo revisado pela equipe médica do CEIMEC — Centro de Estudo Integrado de Medicina Chinesa, referência em Acupuntura Médica há mais de 30 anos.
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