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Resumo sobre o artigo “Acupuncture and Neural Mechanism in the Management of Low Back Pain – An Update”         


A dor lombar acomete atualmente mais de meio milhões de pessoas no mundo. Sua etiologia é multifatorial, podendo ser ocasionada por lesões, fraturas, degenerações, hérnias, entre outras disfunções.

Além disso, inúmeros outros fatores também aumentam o risco para desenvolvimento da lombalgia, tais como infecções; doenças autoimunes, ortopédicas e oncológicas; fatores ergonômicos, como sedentarismo, postura, trabalho físico pesado ou repetitivo; fatores socioeconômicos, como baixa-renda; fatores comportamentais, como tabagismo; e até mesmo o envelhecimento.


Custos da Dor Lombar

Levando tudo isso em consideração, não é de se espantar que os custos da lombalgia para a sociedade sejam altíssimos, sendo que, apenas nos EUA, os efeitos da dor lombar geram anualmente uma demanda em torno de 100 bilhões de dólares. Ainda, a incidência de casos de dor lombar vem aumentando progressivamente ano a ano. Fica clara, então, a necessidade de integrar abordagens complementares ao tratamento convencional no alívio da dor lombar.

Para ser possível amenizar o quadro da dor lombar, é necessário entender a origem da dor. Ela pode ser nociceptiva (de origem externa), inflamatória (derivada de um processo inflamatório interno) ou neuropática (devido a lesões no sistema nervoso). A percepção da dor se inicia pelos receptores de dor presentes desde a superfície da pele até os órgãos internos.



Estes nociceptores enviam as informações de dor pelas fibras nervosas, as quais levam, através da medula espinal, a informação até o sistema nervoso central, onde a sensação de dor é formada. A ativação dessa via também pode ser induzida por um processo inflamatório, no qual um dano tecidual induz a liberação de diversos agentes inflamatórios que causam a ativação das fibras nervosas nociceptivas, gerando dor.

Acupuntura

A acupuntura é um método da Medicina Tradicional Chinesa cujo intuito é controlar ou reduzir a dor, consistindo numa alternativa às abordagens farmacológicas, as quais muitas vezes não promovem alívios duradouros e podem causar diversos efeitos colaterais.

A acupuntura tem como base a inserção de agulhas finas nos músculos, de acordo com pontos específicos que seguem “meridianos” e “colaterais” no corpo, designados há milênios. Apesar do baixo custo da acupuntura e sua grande disseminação pelo mundo, ainda há uma falta considerável de infraestrutura para sua realização, além de insuficientes estudos que realmente comprovem sua eficácia.


Estudos sobre acupuntura

Uma das grandes controvérsias atreladas aos estudos sobre acupuntura são os potenciais vieses causados tanto pelos desenhos experimentais limitados quanto pelo possível efeito placebo gerado. Contudo, o efeito placebo pode ser causado por qualquer intervenção médica, uma vez que a mera expectativa de tratamento já pode trazer repostas positivas no paciente, por conta da liberação de opioides endógenos, as endorfinas. Mas, é de se destacar que muitos dos experimentos sobre a eficácia da acupuntura apresentados na literatura até agora não seguem o protocolo ouro, o método duplo-cego-placebo.

A ideia é que nem os experimentadores, nem os pacientes saibam da natureza do agente que lhe será oferecido, diminuindo o efeito placebo. Este agente oferecido pode ser o tratamento completo ou apenas um sham. No caso da acupuntura, o grupo sham é tratado somente com estimulação tátil nos pontos, e não com a inserção real das agulhas. Grande parte dos estudos realizados demonstra que a acupuntura induz um aumento moderado no alívio da dor, mas os grupos sham também apresentam este efeito, o qual pode ser explicado em partes por esse efeito placebo.


Efeitos fisiológicos do agulhamento

Em contrapartida, outros estudos feitos até agora mostraram resultados relevantes da acupuntura no alívio da dor. Sabe-se que os pontos de acupuntura possuem uma associação com estruturas morfológicas, principalmente os pontos gatilho miofasciais dos músculos.



Ainda, teorias atuais para o mecanismo de ação da acupuntura julgam que a inserção da agulha resulta numa micro-lesão tecidual, a qual induz a liberação de moléculas purinas, como a adenosina e o ATP. Em estudos de acupuntura com camundongos, a adenosina se mostrou como um mediador anti-inflamatório, diminuindo a dor. Animais transgênicos que não possuíam receptores para esta molécula não apresentaram redução da dor. As purinas podem, então, agir como anti-nociceptores ao atuar sobre receptores purinérgicos presentes nas fibras nervosas, bloqueando essa sensação de dor.

Realmente, combinar a prática de acupuntura com a injeção de agonistas purinérgicos pode prolongar o alívio da dor. De maneira contrária, antagonistas purinérgicos, como a cafeína, podem minar o efeito benéfico da acupuntura. Neste sentido, a menor ingestão de café nos países orientais pode ser uma explicação para a maior eficácia da acupuntura nestas regiões.


Evidências sobre a acupuntura

Considerando-se a literatura atual, os mecanismos analgésicos da acupuntura de fato ainda precisam ser melhor investigados. Entretanto, diversos efeitos benéficos já foram observados, inclusive sobre a lombalgia. Foi confirmado que a acupuntura – tanto sham quanto real – induz um alívio de longo prazo de até 2 vezes mais que os tratamentos comuns.

É possível que essa falta de significância entre os tratamentos sham e acupuntura real sejam devido ao fato de que até a estimulação manual consiga induzir uma modulação da dor por ativação de fibras nervosas. Deste modo, ambas as abordagens parecem culminar em efeitos analgésicos.

Além de tudo, a acupuntura é uma prática de baixo custo e seus efeitos adversos são quase inexistentes. A despeito de seu caráter controverso, não se pode negar que a prática de acupuntura é uma potencial estratégia alternativa a ser associada com os tratamentos convencionais para a dor lombar.

As abordagens integrativas, uma vez que comprovados seus efeitos positivos e baixos riscos, devem sempre ser bem-vindas, e estudá-las a fundo pode ser o caminho que leva para o desenvolvimento de estratégias de saúde pública menos custosas e mais sustentáveis.

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CRM-SP: 158074 / RQE: 65523 - 65524

Médico especialista em Fisiatria e Acupuntura. Área de Atuação em Dor pela AMB. Doutorado em Ciências pela USP. Pesquisador e Colaborador do Grupo de Dor do Departamento de Neurologia do HC-FMUSP. Diretor de Marketing do Colégio Médico de Acupuntura do Estado de São Paulo (CMAeSP). Integrante da Câmara Técnica de Acupuntura do Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo (CREMESP). Secretário do Comitê de Acupuntura da Sociedade Brasileira para Estudo da Dor (SBED). Presidente do Comitê de Acupuntura da Sociedade Brasileira de Regeneração Tecidual (SBRET). Professor convidado do Curso de Pós-Graduação em Dor da Universidade de São Paulo (USP). Membro do Conselho Revisor - Medicina Física e Reabilitação da Journal of the Brazilian Medical Association (AMB).

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