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Dois estudos recentes conduzidos no Abramson Cancer Center e Perelman School of Medicine, na University of Pennsylvania, trazem esperança às sobreviventes de câncer de mama que lutam contra a dor e o inchaço associados à condição, apontando meios para intensificar a força muscular e a imagem corporal.

Os estudos aparecem em uma das primeiras monografias do tipo, no Journal of the National Cancer Institute Monographs, e enfocam a oncologia integrativa, que combina diversas terapias (algumas das quais não tradicionais) para obter o máximo benefício aos pacientes de câncer.  

Em seu primeiro estudo, A Hybrid Effectiveness-Implementation Trial of an Evidence-Based Exercise Intervention for Breast Cancer Survivors [Estudo híbrido da efetividade-implementação de uma intervenção baseada em evidência para sobreviventes de câncer], os pesquisadores do Penn avaliaram pacientes que participaram do “Strength after Breast Cancer”,  programa de educação e exercício baseado em evidência desenvolvido pelo Penn Medicine para  sobreviventes do câncer de mama.

O estudo foi delineado para investigar a facilidade e a efetividade do transporte de um tratamento baseado em pesquisa para o contexto da prática. O objetivo primário era demonstrar a efetividade do programa para os pacientes após a transição do cenário de pesquisa para o contexto da prática. O objetivo secundário foi conhecer o processo de implementação e identificar as barreiras à implementação.      

Somando-se às pesquisas anteriores do grupo, os resultados deste novo estudo mostram vários benefícios do exercício para os participantes, incluindo diminuição dos sintomas de linfedema—uma condição de inchaço da parte superior do corpo subsequente ao tratamento do câncer de mama, a qual pode ser causada pela remoção ou dano a linfonodos do corpo.




Os resultados também mostraram uma proporção menor de mulheres apresentando início de linfedema (8%) ou com necessidade de tratamento administrado por terapeuta (19%), melhoras na força das partes superior e inferior do corpo (13 e 9 %, respectivamente), e melhoras na imagem corporal (16 %). A intervenção não produziu efeitos adversos notáveis. 

O segundo objetivo do estudo permitiu que a equipe conduzisse a pesquisa em uma nova direção. Liderada pelo autor principal, Rinad Beidas, PhD, professor assistente de Psiquiatria, a equipe buscou identificar as barreiras à implementação do programa.

E os pesquisadores conseguiram identificar alguns fatores que potencialmente entravavam o processo de implementação, entre os quais: características de intervenção, pagamento, critérios de elegibilidade, processo de encaminhamento, necessidade de defensores, e necessidade de adaptação durante a implementação da intervenção. 

“Os resultados deste estudo são estimulantes, porque demonstram que um programa de exercícios e educação baseado em evidência para sobreviventes do câncer de mama pode ser traduzido em um novo contexto e, ao mesmo tempo, permanecer efetivo e seguro”, afirma Beidas.

“De modo significativo, também conseguimos identificar os tipos de barreiras que poderiam ser abordadas ao escalar este programa, as quais fornecem informação relevante na tradução da pesquisa em prática que, historicamente, demorou 17 anos.”

O “Strength after Breast Cancer” [Força após o câncer de mama] foi desenvolvido pela autora sênior do estudo, Kathryn Schmitz, PhD, MPH, professora de Epidemiologia e Bioestatística, e membro do Abramson Cancer Center, com base em um estudo realizado em 2011, o qual demonstrou que, contrariando as crenças antigas, o exercício e o levantamento de carga podem ser extremamente benéficos para os sobreviventes do câncer de mama. Administrado por fisioterapeutas, o Strength after Breast Cancer inclui aulas de exercícios em grupo e um programa de exercícios a serem praticados pelas pacientes em casa ou na academia. 

Esse programa atualmente é disponibilizado em vários locais, da região de Delaware Valley em diante. Schmitz planeja ainda desenvolver um cursos de treinamento online destinado a fisioterapeutas, para capacita-los a disponibilizar o programa Strength after Breast Cancer às sobreviventes ao longo dos Estados Unidos. 



Outro estudo sobre eletroacupuntura

Em um segundo estudo, Expectancy in Real and Sham Electroacupuncture: Does Believing Make It So? [Expectativas na eletroacupuntura real e na simulada: então acreditar funciona?], pesquisadores do Penn Medicine e de outras instituições constataram que a eletroacupuntura (acupuntura “real”) ajudou a reduzir a dor articular em até 40% das mulheres com câncer de mama, independentemente de a paciente ter ou não expectativa de que a técnica fosse funcionar.

Esse estudo constatou ainda que a acupuntura “simulada”—que envolve agulhas não perfurantes e não usa estimulação elétrica—promoveu uma redução na dor de até 80%, quando as pacientes nutriam alto grau de expectativa de que o tratamento fosse funcionar. Os resultados do estudo têm implicações relevantes para o tratamento futuro de pacientes com câncer de mama apresentando dor articular.

“Nosso estudo é o primeiro a trazer evidência de que o fato de a acupuntura real funcionar ou não funcionar não é afetado pela expectativa, mas um alto nível de expectativa parece ter efeito positivo sobre as pacientes submetidas à acupuntura simulada”, explica o autor sênior do estudo, Jun J. Mao, MD MSCE, professor associado de Medicina Familiar e Saúde da Comunidade e diretor do programa de oncologia integrativa do Abramson Cancer Center, que foi editor da monografia especial.

“Esta questão vai além da acupuntura e é importante para todos os estudos envolvendo controle da dor que usam placebo, como fármacos, procedimentos e produtos naturais.”

As descobertas resultam de uma investigação que buscou avaliar a relação existente entre a expectativa da resposta e o desfecho do tratamento para rigidez articular ou dor articular com acupuntura real ou acupuntura simulada, entre 41 pacientes com câncer de mama.

Um grupo controle não recebeu nenhuma intervenção. A rigidez e a dor articulares são efeitos colaterais do inibidor de aromatase, uma terapia hormonal usada para ajudar a tratar o câncer de mama.   

Em adição, as pacientes que relataram alívio da dor demonstraram maior expectativa de que isto continuaria acontecendo no decorrer do tratamento com acupuntura, em comparação às pacientes não respondedoras, sugerindo que as respostas positivas durante o processo de acupuntura real aumentaram as expectativas de resultados positivos adicionais—aquilo a que o autor chamou resultado “bottom-up”.

“Estes achados certamente desafiam a noção sustentada por alguns de que a acupuntura ‘não passa de placebo’”, diz o autor principal do estudo, Joshua Bauml, MD, professor assistente de Medicina junto ao Abramson Cancer Center. “Se ‘tudo não passasse de placebo’, as pacientes submetidas à acupuntura real que tinham baixa expectativa de que o tratamento fosse funcionar teriam relatado pouca ou nenhuma diminuição da dor. Mas não foi esse o caso.”

A acupuntura simulada somente produziu alívio clinicamente significativo da dor em pacientes com alto nível de expectativa. Por outro lado, as pacientes que nutriram maior expectativa de que o tratamento funcionaria relataram até 80% de redução da dor—o dobro do relatado pelas pacientes submetidas à acupuntura real (os autores chamaram isto de resultado “top-down”).

As pacientes submetidas à acupuntura simulada com escores baixos de expectativa basal não relataram nenhuma redução significativa na dor. 

A resposta mais forte observada nas pacientes que tinham alta expectativa com relação à acupuntura simulada levanta a questão sobre estas pacientes poderem ou não ser beneficiadas pelo uso de agulhas sem perfuração na ausência de eletroestimulação. 

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CRM-SP: 158074 / RQE: 65523 - 65524

Médico especialista em Fisiatria e Acupuntura. Área de Atuação em Dor pela AMB. Doutorado em Ciências pela USP. Pesquisador e Colaborador do Grupo de Dor do Departamento de Neurologia do HC-FMUSP. Diretor de Marketing do Colégio Médico de Acupuntura do Estado de São Paulo (CMAeSP). Integrante da Câmara Técnica de Acupuntura do Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo (CREMESP). Secretário do Comitê de Acupuntura da Sociedade Brasileira para Estudo da Dor (SBED). Presidente do Comitê de Acupuntura da Sociedade Brasileira de Regeneração Tecidual (SBRET). Professor convidado do Curso de Pós-Graduação em Dor da Universidade de São Paulo (USP). Membro do Conselho Revisor - Medicina Física e Reabilitação da Journal of the Brazilian Medical Association (AMB).