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Resumo do artigo: Anxiety, depression and acupuncture: A review of the clinical research.

A depressão e ansiedade contribuem significativamente para a carga global de doenças. [1]Pilkington K. Anxiety, depression and acupuncture: a review of the clinical research. Autonomic Neuroscience. 2010 Oct 28;157(1-2):91-5. A depressão é um distúrbio de diagnóstico heterogêneo em que o indivíduo apresenta humor deprimido ou perda de prazer na maioria das atividades, sentimentos esses que aparecem com frequência e podem combinar-se entre si. [2]Pilkington K, Kirkwood G, Rampes H, Cummings M, Richardson J. Acupuncture for anxiety and anxiety disorders–a systematic literature review. Acupuncture in Medicine. 2007 Jun;25(1-2):1-0.

Há dois sistemas disponíveis para diagnóstico de transtornos depressivos. A Classificação Estatística Internacional de Doenças e Problemas Relacionados à Saúde (CID-10) utiliza uma lista de dez sintomas de depressão.

Os “episódios depressivos” são classificados como leves, moderados ou graves de acordo com o número de sintomas presentes. Já os diagnósticos definidos no Manual Diagnóstico Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-IV) incluem episódios únicos ou transtorno depressivo mais recorrente, sendo este caracterizado tristeza ou perda de interesse, ou prazer nas atividades cotidianas por pelo menos duas semanas.

A ansiedade, por sua vez, é definida como um sentimento persistente de pavor, apreensão, e desastre iminente ou tensão e mal-estar. O termo “transtornos de ansiedade” é usado para uma série de condições, que incluem transtorno de pânico, fobias, transtorno obsessivo-compulsivo (TOC), ansiedade generalizada, transtorno de estresse traumático e distúrbio de ansiedade devido a uma condição médica generalizada. [3]ystritsky A, Khalsa SS, Cameron ME, Schiffman J. Current diagnosis and treatment of anxiety disorders. Pharmacy and Therapeutics. 2013 Jan;38(1):30.

Estes distúrbios representam uma questão de saúde internacional, uma vez que milhões de pessoas são afetadas por eles e sua prevalência cresce a cada ano. A condição predominante, entretanto, é a combinação de ansiedade e depressão. O tratamento convencional destes distúrbios é similar e envolve a utilização de antidepressivos tricíclicos, inibidores seletivos da recaptação serotonina e terapia comportamental cognitiva. A abordagem medicamentosa, no entanto, é associada a efeitos adversos e baixa adesão, enquanto a última opção não está amplamente disponível a todos.

Sendo assim, os pacientes buscam por tratamentos alternativos, dentre eles a acupuntura. A prática da acupuntura consiste na estimulação de pontos específicos do corpo através de uma variedade de técnicas. Na medicina tradicional oriental, baseia-se no conceito de uma força vital fluindo ao redor do corpo ao longo de caminhos conhecidos como “meridianos), e, assim, a estimulação de pontos de acupuntura é usada para equilibrar as forças opostas (yin e yang), garantindo o fluxo de energia e a manutenção ou restauração da saúde.

Na medicina ocidental, em contraste, a prática da acupuntura se baseia nos conceitos anatômicos e neurofisiológicos contemporâneos. Assim, os pontos de acupuntura estão correlacionados a locais onde a estimulação externa corresponde a maior estímulo sensorial, como, por exemplo, pontos motores de músculos e feixes nervosos periféricos. Ainda, pode-se utilizar combinações de ponto de gatilho, pontos sensíveis e pontos segmentares, além de poder empregar variações da técnica, como acupuntura auricular, acupuntura a laser, e acupressão.

Mecanismo da Acupuntura

O mecanismo da acupuntura ainda não está totalmente elucidado, porém sabe-se que a prática altera os níveis de neurotransmissores. Estudos mostraram que a acupuntura reduz os níveis plasmáticos de dopamina e de neuropeptídeo Y na depressão relacionada a menopausa e depressão recorrente, respectivamente. Além disso, ela também tem efeito sobre a resposta inflamatória, cujo desbalanço entre Th1 e Th2 está fortemente associado no desenvolvimento da depressão. Como mostrado por um trabalho, a eletroacupuntura teve resultados semelhantes à terapia com antidepressivo, restaurando esse balanço e reduzindo os níveis de citocinas pró-inflamatórias.

Nesse sentido, uma série de ensaios clínicos foram realizados para avaliar o potencial da acupuntura para tratamento de distúrbios depressivos. Em uma análise de vinte trabalhos, por exemplo, buscou-se comparar a acupuntura e tratamento com antidepressivos. A acupuntura, por sua vez, mostrou-se equivalente à terapia medicamentosa, e ainda com a vantagem de apresentar menos efeitos adversos.

Pontos Utilizados

Dentre pontos escolhidos com maior frequência, estavam o Baihui (GV20), Yintang (EX-HN3), Taichong (LR-3) e Shenmen (HT-7), porém não havia informação suficiente que explicasse a escolha de tais pontos, o que pode ter refletido no fato de análise não obter diferença significativa entre a acupuntura ativa e a simulada (sham). 

Desse modo, o desenho experimental de diversos trabalhos variou das mais diversas formas, sendo desde a forma de estimulação quanto ao controle. A falta de um padrão e redução de vieses dificultam a comparação e, como consequência, a inferência de associação tratamento-efeito. Isso foi observado em meta-análises que não obtiveram resultados conclusivos acerca da eficácia da acupuntura em relação a tratamentos medicamentosos e acupuntura simulada.

Da mesma forma, análises também foram feitas para a acupuntura no tratamento da ansiedade e encontraram as mesmas dificuldades.

Enquanto estudos sugerem os efeitos benéficos da acupuntura, como a redução de escores de ansiedade pré-operatória após acupuntura auricular, e outros reportam efeitos semelhantes entre acupuntura e terapia medicamentosa; a maioria não obtém diferenças significativas.

Assim, devido à falta de padronização e grande heterogeneidade dos estudos quanto a escolha dos pontos de agulhamento, número de sessões, modalidade de estimulação, duração e profundidade do agulhamento, entre outros; os efeitos comparativos entre a acupuntura e terapia convencional não são efetivamente avaliados.

Dessa forma, apesar de promissora, são necessários estudos com melhor desenho experimental para que possamos obter resultados conclusivos sobre a eficácia da acupuntura para os transtornos de depressão e ansiedade.

Ademais, também há grande necessidade de investigação sobre a etiologia desses transtornos para que, assim, seja determinado o tratamento mais adequado.

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CRM-SP: 158074 / RQE: 65523 - 65524

Médico especialista em Fisiatria e Acupuntura. Área de Atuação em Dor pela AMB. Doutorado em Ciências pela USP. Pesquisador e Colaborador do Grupo de Dor do Departamento de Neurologia do HC-FMUSP. Diretor de Marketing do Colégio Médico de Acupuntura do Estado de São Paulo (CMAeSP). Integrante da Câmara Técnica de Acupuntura do Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo (CREMESP). Secretário do Comitê de Acupuntura da Sociedade Brasileira para Estudo da Dor (SBED). Presidente do Comitê de Acupuntura da Sociedade Brasileira de Regeneração Tecidual (SBRET). Professor convidado do Curso de Pós-Graduação em Dor da Universidade de São Paulo (USP). Membro do Conselho Revisor - Medicina Física e Reabilitação da Journal of the Brazilian Medical Association (AMB).

Referências Bibliográficas

Referências Bibliográficas
1Pilkington K. Anxiety, depression and acupuncture: a review of the clinical research. Autonomic Neuroscience. 2010 Oct 28;157(1-2):91-5.
2Pilkington K, Kirkwood G, Rampes H, Cummings M, Richardson J. Acupuncture for anxiety and anxiety disorders–a systematic literature review. Acupuncture in Medicine. 2007 Jun;25(1-2):1-0.
3ystritsky A, Khalsa SS, Cameron ME, Schiffman J. Current diagnosis and treatment of anxiety disorders. Pharmacy and Therapeutics. 2013 Jan;38(1):30.